Mega revisão de Língua Portuguesa
Esta revisão integra todo o programa de Língua Portuguesa do Edital nº 1 — TCE/MA, de 6 de julho de 2026, comum aos cargos cobertos por este material. O eixo de prova é simples: não basta reconhecer uma regra; é preciso verificar o que muda quando a banca substitui, desloca, pontua, reduz, desenvolve ou reordena um trecho.
Regra de sobrevivência: em qualquer reescrita, faça dois julgamentos separados: (1) a nova forma é gramatical? (2) ela preserva o sentido, o referente, o escopo, a modalidade, a relação lógica e o foco exigidos pelo comando? Uma resposta “sim” à primeira pergunta não garante “sim” à segunda.
1. Leitura, compreensão e interpretação
A interpretação deve ser sustentada por marcas do texto. Uma ideia pode ser plausível no mundo e ainda assim não ser autorizada pelo texto.
Escala de força
| Nível | O que significa |
|---|---|
| explícito | está afirmado ou representado diretamente |
| necessário | decorre sem alternativa compatível |
| fortemente autorizado | é a leitura mais sustentada pelo conjunto |
| possível | é compatível, mas não confirmada |
| extrapolado | acrescenta conteúdo, certeza ou alcance |
| contraditório | é incompatível com o texto |
Possível não é sinônimo de inferível. Em itens de certo/errado, uma única ampliação indevida pode invalidar toda a proposição.
Oito controles antes de marcar
- quantificador:
algunsnão viratodos; - modalidade:
podenão viradevenemocorrerá; - negação: localize exatamente o que
não,nunca,apenas,salvoalcançam; - intensidade:
reduzirnão éeliminar;dificultarnão éimpedir; - tempo:
ainda,já,antes,depoisalteram pressupostos; - causalidade: sequência ou correlação não prova causa;
- voz: fala de fonte citada não é automaticamente posição do autor;
- restrição: condição, exceção e recorte não podem desaparecer.
Diferencie assunto (campo geral), tema (recorte desenvolvido), ideia principal (informação organizadora) e tese (posição defendida). Argumento sustenta tese; exemplo ilustra; ressalva limita; citação pode apenas apresentar outra voz.
Pressuposição, acarretamento e implicatura também não se confundem. Parou de recorrer pressupõe recorrência anterior; conseguiu concluir acarreta conclusão; uma implicatura contextual pode ser cancelável.
Em gráficos e textos multimodais, integre título, unidade, período, fonte, escala, eixos, legenda e ressalvas. Variação percentual não se confunde com ponto percentual, e correlação não autoriza causa.
2. Tipos e gêneros textuais
Não troque quatro categorias diferentes:
| Categoria | Pergunta |
|---|---|
| gênero | que ação comunicativa concreta é realizada? |
| tipo/sequência | como o conteúdo se organiza linguisticamente? |
| domínio/esfera | em que campo social circula? |
| suporte | em que meio é apresentado? |
Gênero é forma social relativamente estável: edital, relatório, notícia, parecer, e-mail. Tipo ou sequência é organização abstrata: narrativa, descritiva, expositiva, argumentativa, injuntiva. Um gênero pode combinar várias sequências.
- narração: acontecimentos e progressão;
- descrição: propriedades, estados, localização;
- exposição: definição, explicação, classificação;
- argumentação: tese + sustentação;
- injunção: orientação de ação; não exige imperativo;
- dialogal: alternância de turnos, quando a teoria adotada a reconhece como tipo autônomo.
Exposição × argumentação
Dados, exemplos e citações aparecem nos dois. A pergunta decisiva é: o texto explica um objeto ou busca adesão a uma tese? Opinião isolada não basta para caracterizar argumentação.
Predominância não significa exclusividade. Notícia é gênero, não “tipo narrativo”; receita é gênero, não “tipo injuntivo”; portal é suporte, não gênero. Na intergenericidade, uma forma pode imitar outro gênero sem perder a finalidade comunicativa efetiva.
3. Ortografia oficial
A ortografia cobrada parte do Acordo Ortográfico em vigor. Para grafia lexical, plural e variantes, o VOLP da Academia Brasileira de Letras é referência segura: regra produtiva resolve padrões; registro lexical resolve o que a analogia não decide.
Acentuação que mais rende
- monossílabos tônicos terminados em
a(s),e(s),o(s):pá,mês,nós; - oxítonas em
a(s),e(s),o(s),em,ens:café,cipó,também; - paroxítonas nas terminações clássicas:
fácil,hífen,caráter,tórax,órgãos,história; - todas as proparoxítonas são acentuadas;
- hiatos tônicos:
país,saída,baú, observadas as restrições.
Mudanças consolidadas do Acordo: ideia, heroico, voo, enjoo, creem, leem, veem, feiura, sem trema em linguiça, frequente, tranquilo. Permanecem distinções como pôde/pode, pôr/por, tem/têm, vem/vêm.
Hífen em fluxo
| Encontro | Tendência |
|---|---|
| mesma vogal | hífen: anti-inflamatório, micro-ondas |
| vogais diferentes | junta: autoescola, autoavaliação |
prefixo + r/s | junta e duplica: antirracista, minissaia |
prefixo + h | hífen: anti-higiênico |
Há comportamentos próprios: coobrigação, reeleição, preexistente, ex-presidente, vice-presidente, pré-escolar, pós-graduação, bem-estar. Compostos e locuções exigem atenção lexical: paraquedas, mas para-brisa; dia a dia, mas cor-de-rosa.
Pares como sessão/seção/cessão, ratificar/retificar, mandado/mandato, eminente/iminente, infringir/infligir não são “certo × errado”: são palavras diferentes, e o contexto escolhe.
4. Coesão: referência, substituição, repetição, conectores e sequenciação
Coesão articula partes do texto por marcas linguísticas; coerência é a interpretabilidade global. Uma favorece a outra, mas não são equivalentes.
Referenciação
- anáfora direta: retoma o mesmo referente;
- anáfora indireta: ativa referente associado a uma âncora anterior;
- catáfora: antecipa conteúdo;
- exófora: depende da situação externa;
- encapsulador: resume oração, período ou bloco (
esse fato,essa medida).
Não escolha o antecedente apenas pela proximidade. Verifique gênero, número, papel sintático, plausibilidade semântica e ausência de ambiguidade.
Nos relativos, reconstrua a oração:
procedimento **ao qual** aderiu→ aderiu ao procedimento;empresa **cujo contrato**→ posse;cujoconcorda com o termo posterior e não recebe artigo;ondeexige valor locativo; em antecedente abstrato, prefira a forma relativa regida (em que,no qual).
Conectores
| Relação | Exemplos |
|---|---|
| adição | e, também, além disso |
| oposição | mas, porém, contudo |
| concessão | embora, ainda que |
| causa | porque, já que, como |
| consequência | por isso, de modo que |
| conclusão | portanto, logo, pois posposto |
| condição | se, caso |
| finalidade | para que, a fim de que |
| conformidade | conforme, segundo |
| proporção | à medida que, quanto mais... mais |
Pois, como, assim, e, já, então são polifuncionais: posição ajuda, mas a relação entre as proposições decide. Troca de conector só é segura se preservar sintaxe, pontuação, modo verbal, relação lógica, alcance e orientação argumentativa.
5. Tempos e modos verbais
Separe quatro planos: tempo cronológico, tempo verbal, aspecto e modalidade.
- indicativo tende a apresentar conteúdo como assertado;
- subjuntivo aparece em dependência, desejo, avaliação, condição, eventualidade e projeção;
- imperativo expressa ordem, pedido, conselho, instrução ou convite.
A forma não fixa sozinha o valor: Amanhã viajo usa presente com valor futuro; Em 1988, promulga-se... usa presente histórico; Eu queria pedir... pode usar imperfeito de polidez; teria ocorrido pode sinalizar distanciamento em informação atribuída.
Condicionais típicas
Se estudar, passará.— futuro aberto;Se estudasse, passaria.— hipótese remota;Se tivesse estudado, teria passado.— contrafactual passado.
Se teria não é erro automático: pode surgir em interrogativa indireta (não sei se teria condições).
Futuros do subjuntivo irregulares merecem memória: tiver, fizer, disser, trouxer, puser, vier, vir (de ver), reouver, couber.
Em reescrita, uma troca pode manter gramática e alterar aspecto: tem feito sugere continuidade/reiteração até o presente; fez delimita evento. Ia ocorrer, ocorria e ocorreria não são automaticamente equivalentes.
6. Classes nominais
Classe gramatical, sentido e função sintática são planos diferentes. A mesma forma muda de classe conforme o uso.
um: artigo emum candidato; numeral emum, não dois;o: artigo emo relatório; pronome oblíquo emeu o li; demonstrativo emo que ocorreu;meio: numeral (meia hora), substantivo (meio de transporte) ou advérbio (meio cansada);certo: indefinido emcerto candidato; adjetivo emcandidato certo;bastante: variável embastantes recursos; invariável embastante atentos.
Artigo definido, indefinido e ausência de artigo podem mudar a referência. Compare todo país (qualquer país, em leitura típica) e todo o país (país inteiro).
Nos pronomes:
para eu redigir—eué sujeito do infinitivo;para mim— forma preposicionada sem função de sujeito;seu/suapode criar ambiguidade;cujoindica posse e não aceita artigo;isto/isso/aquilosão invariáveis.
7. Verbo como classe de palavras
Verbo pode expressar ação, estado, mudança, processo ou fenômeno e se flexiona em pessoa, número, tempo, modo e voz.
Formas não finitas: infinitivo, gerúndio, particípio. O infinitivo pessoal é especialmente cobrado:
Antes de os servidores responderem.— sujeito próprio explícito;Os servidores devem responder.— em locução com mesmo sujeito, não se flexiona o infinitivo principal.
Voz e se
- ativa:
A comissão publicou o resultado.; - passiva analítica:
O resultado foi publicado pela comissão.; - passiva sintética:
Publicaram-se os resultados.; - indeterminação:
Precisa-se de servidores.; - reflexivo:
Ele se feriu.; - pronominal:
Ele se arrependeu.
Nem todo se é apassivador. Teste a transitividade e a possibilidade de passiva analítica.
Haver com sentido de existir/ocorrer e fazer indicando tempo são impessoais: há problemas, deve haver problemas, faz dois anos. Mas haver auxiliar é pessoal: eles haviam estudado.
8. Classes invariáveis
O emprego decide a classe.
- advérbio: modifica verbo, adjetivo, outro advérbio ou a oração;
- preposição: liga termos, subordinando o segundo;
- conjunção: conecta unidades com relação lógico-gramatical;
- interjeição: exprime reação, apelo ou saudação.
Compare:
meia hora×meio cansadas;bastantes recursos×bastante preparadas;parede alta×falar alto;segundo candidato×segundo o edital;conforme o edital×conforme prevê o edital.
Que pode ser conjunção ou pronome relativo; se, integrante ou condicional; quando, conjunção ou advérbio interrogativo; ora, conjunção alternativa ou interjeição. Valor semântico não basta para fixar classe: por isso pode ter valor conclusivo sem ser conjunção.
9. Coordenação
Coordenação liga termos ou orações no mesmo nível sintático.
Revisou o relatório **e a planilha**.— coordenação de objetos;Revisou o relatório **e publicou a nota**.— coordenação de orações;Espero **que revise e que publique**.— subordinadas coordenadas internamente.
Relações tradicionais
Aditiva, adversativa, alternativa, conclusiva e explicativa. O conector não decide sozinho: e pode expressar soma, sequência, consequência contextual ou contraste; ou pode ser exclusivo, inclusivo ou reformulativo; pois pode explicar ou concluir.
A coordenação exige paralelismo de função, preposição, forma, voz e nível semântico:
- defeituoso:
interesse em revisar e pela publicação; - paralelo:
interesse na revisão e na publicação.
Não confunda:
Chovia, **mas** saí.— adversidade coordenativa;**Embora** chovesse, saí.— concessão subordinativa.
Podem preservar oposição geral, mas mudam hierarquia, modo verbal, foco e pontuação.
10. Subordinação
Subordinação é dependência sintática. Pergunte: qual é o núcleo/regente e que função a unidade dependente exerce?
Substantivas
- subjetiva:
Convém **que revisem**.; - objetiva direta:
Informou **que terminou**.; - objetiva indireta:
Duvida **de que baste**.; - completiva nominal:
Tem esperança **de que aceitem**.; - predicativa:
A verdade é **que expirou**.; - apositiva:
Um pedido: **que revisem**.
Que integrante não retoma antecedente; que relativo retoma e exerce função interna.
Adjetivas
- restritiva: seleciona subconjunto; em regra, sem isolamento;
- explicativa: acrescenta comentário sobre referente já delimitado; fica isolada.
A pontuação pode mudar o conjunto referido.
Adverbiais
Causa, consequência, condição, concessão, comparação, conformidade, finalidade, proporção e tempo. Conectivo é pista; contexto decide.
Reduzidas podem vir no infinitivo, gerúndio ou particípio. Ao desenvolver, preserve sujeito, tempo, modo e relação semântica. Concluído o processo pode corresponder a quando o processo foi concluído, mas não autoriza inventar causa ou condição.
11. Pontuação
Pontuação organiza sintaxe, relações, escopo, foco e destaque. Pausa oral não cria regra.
Proibições estruturais
Não separe, sem inciso justificável:
- sujeito e predicado;
- verbo e complemento;
- nome e complemento necessário;
- regente e subordinada substantiva integrada.
Isolamentos importantes
- vocativo e aposto explicativo;
- oração adjetiva explicativa;
- oração/adjunção intercalada;
- conectores intercalados.
Adjunto adverbial anteposto extenso costuma ser isolado; curto pode admitir facultatividade. Mas facultatividade formal não implica neutralidade semântica.
Compare:
Os servidores que concluíram receberam certificado.— subconjunto;Os servidores, que concluíram, receberam certificado.— grupo já delimitado, apresentado como concluinte.
Mas normalmente recebe vírgula antes, não depois, salvo inciso. Porém, contudo e entretanto são móveis e podem ficar isolados. Com e, rejeite absolutos: nem “nunca há vírgula” nem “sujeitos diferentes sempre exigem vírgula” são regras universais.
Dois-pontos não separam verbo e objeto; ponto e vírgula organiza blocos coordenados e enumerações complexas; travessões, parênteses e vírgulas podem delimitar incisos com graus diferentes de destaque.
12. Concordância verbal e nominal
Rastreie o controlador, não o termo mais próximo.
Verbal
- sujeito simples → verbo com o núcleo;
- composto anteposto → plural;
- composto posposto → plural ou atração em construções admitidas;
- sujeito oracional → singular;
haverexistencial efazertemporal → singular;existir,ocorrer,surgir→ concordam com o sujeito.
Com se:
- VTD/VTDI +
seapassivador:Publicaram-se os editais; - VI/VTI/VL +
seindeterminador:Precisa-se de analistas.
Partitivas (a maioria de...) podem admitir variação; cada um dos, nenhum dos e qualquer um dos pedem singular. Percentuais exigem examinar número, especificador e foco.
Nominal
anexo,incluso,apensovariam;em anexoé invariável;só= sozinho varia;só= somente não;meio= metade varia;meio= um pouco não;bastante= suficientes varia; intensificador não;menosé invariável;obrigado/obrigadaconcorda com quem agradece.
Em reescrita, alterações de número/gênero devem propagar por determinantes, adjetivos, auxiliares, particípios e predicativos.
13. Regência verbal e nominal
A acepção concreta define a transitividade. A forma conservadora é a escolha de menor controvérsia quando o comando pede norma-padrão; variantes documentadas não devem ser transformadas em “erro universal” sem base.
Verbos clássicos
| Verbo | Construção relevante |
|---|---|
| assistir | assistir ao julgamento = ver; assistir o paciente = ajudar |
| aspirar | aspirar ao cargo = desejar; aspirar o ar = inalar |
| visar | visar ao objetivo = ter por fim; visar o documento = pôr visto |
| obedecer | obedecer às normas |
| preferir | preferir X a Y |
| proceder | proceder a = realizar; proceder de = originar-se |
| implicar | implicar custos = acarretar; implicar com = antipatizar |
Com dois complementos:
informar algo **a** alguém/informar alguém **de** algo;pagar a dívida **ao** credor;perdoar a ofensa **ao** réu.
Não misture esquemas.
Relativos e completivas
Reconstrua a oração:
filme **a que** assisti;livro **de que** gosto;norma **em que** confio;pessoa **a quem** obedeci.
Evite queísmo/dequeísmo pela regência real: ter certeza **de que**; afirmar **que**.
14. Crase
Crase é fusão; o acento grave é seu sinal. O caso-base é preposição a + artigo a/as.
Algoritmo
- encontre o regente;
- confirme se ele exige
a; - verifique se o termo seguinte admite artigo
a/as(ouaquele/aquela/aquilo,a qual); - faça o teste masculino quando possível;
- classifique o caso como obrigatório, proibido, facultativo ou dependente de opção editorial.
Exemplos:
referir-se **à norma**→ a + a;referir-se **a esta norma**→ sem artigo;proposta **a que** me referi×proposta **à qual** me referi;decisão semelhante **à da comissão**= àquela decisão.
Locuções usuais: à tarde, às vezes, à vontade, à medida que, à procura de. Não confunda à medida que (proporção) com na medida em que (causa/justificativa em usos típicos).
Horas:
terminou **há** duas horas;terminará daqui **a** duas horas;começará **às** duas horas;das 8h **às** 10h×de 8h **a** 10h.
Não há crase automaticamente diante de palavra feminina: pronomes pessoais, infinitivo, artigo indefinido, plural sem artigo e muitas outras estruturas a impedem.
15. Colocação pronominal
Antes de decidir próclise/ênclise/mesóclise, identifique pronome, função, oração, verbo simples ou cadeia verbal e eventual fator de atração.
Fatores fortes de próclise:
- negação:
Não me informaram; - relativo:
o parecer que me enviaram; - subordinativa:
quando se manifestarem; - interrogativo/exclamativo;
em + gerúndio:em se tratando.
Sujeito anteposto não é atrator absoluto; coordenativa também não. Advérbio com ou sem pausa exige análise, não regra mecânica.
Na orientação conservadora:
- início de oração sem atrator:
Avisaram-me; - imperativo afirmativo:
Envie-me; - futuro simples sem atrator admite mesóclise:
Comunicar-lhe-ei; - com atrator:
Não lhe comunicarei; - pronome nunca fica depois do particípio:
Tinha-o informado, nãotinha informado-o.
Em locuções, há mais de uma posição possível, mas o atrator e a forma nominal limitam as opções. Além da posição, confira a função: o/a e lhe não são intercambiáveis só porque o referente é pessoa.
16. Significação, substituição e equivalência lexical
Proximidade lexical não garante equivalência contextual. O dicionário oferece acepções; o texto seleciona uma delas.
Uma substituição segura preserva:
- acepção;
- participantes e referentes;
- modalidade, tempo e aspecto;
- quantificação e escopo;
- relação lógica;
- registro e avaliação;
- regência, concordância e coesão.
Relações úteis: sinonímia parcial, antonímia, hiperônimo/hipônimo, polissemia, homonímia, paronímia, parte/todo. Termos do mesmo campo semântico não são necessariamente sinônimos.
A posição altera sentidos: certo candidato ≠ candidato certo; grande homem ≠ homem grande; pobre homem ≠ homem pobre.
Operadores são decisivos:
quase todos<todos;mais de 30tem limite inferior exclusivo;ao menos 30inclui 30;no máximo 30fixa limite superior;só,apenas,até,já,aindadependem de escopo.
Trocar hipótese por fato muda o estatuto epistêmico. Alegou não equivale a demonstrou; sugerem não equivale a provam; tentou concluir não implica que concluiu.
17. Reorganização de orações e períodos
Toda transformação deve passar por três filtros independentes:
| Filtro | Pergunta |
|---|---|
| gramática | a estrutura final está correta? |
| equivalência | participantes, relações, tempo, modalidade e referência foram preservados? |
| foco | escopo e hierarquia discursiva continuam compatíveis com o comando? |
Operações frequentes
- deslocamento: pode exigir nova pontuação e criar ambiguidade;
- fusão: pode inventar causa, conclusão ou restrição;
- divisão: pode enfraquecer elo lógico ou deixar fragmento;
- redução/desenvolvimento: preserve sujeito e valor da subordinada;
- ativa ↔ passiva: preserve tempo/modalidade e confira perda de agente;
- nominalização: pode apagar agente, tempo, aspecto e responsabilidade.
Compare:
não decidiu revisar×decidiu não revisar;Só a comissão analisou×A comissão analisou só o relatório.
O deslocamento do operador muda seu escopo.
Ao unir períodos justapostos, não escolha conector por plausibilidade. O prazo terminou. O recurso não foi admitido. não autoriza automaticamente porque, portanto ou e; cada solução explicita uma relação diferente.
18. Reescrita de gêneros e níveis de formalidade
Reescrever globalmente é adaptar:
enunciador + destinatário + finalidade + gênero + suporte + registro.
Formalidade não é rebuscamento; informalidade não é incorreção. Clareza, precisão e concisão são compatíveis com registro formal.
Preserve antes de adaptar
- fatos e participantes;
- fonte e atribuição;
- datas, quantidades e alcance;
- causa, condição, finalidade e ressalva;
- certeza, possibilidade, obrigação e recomendação;
- polaridade e escopo;
- ação esperada.
Pode ocorrer não vira ocorrerá; recomenda-se não vira é obrigatório.
Depois adapte
Pode mudar ordem, extensão, vocabulário, pessoa discursiva, tratamento, grau de explicitação e elementos convencionais do gênero.
Na passagem oral → escrita institucional, elimine hesitação e dêiticos sem referência, mas não transforme incerteza em certeza. Em texto persistente, prefira data absoluta a amanhã quando o contexto não acompanhar o documento.
Na passagem técnico → público geral, explique jargão sem perder precisão. Na passagem informativo → injuntivo, preserve prazo, condição, canal e responsável. Na passagem opinião → informação, não invente fonte nem apague a atribuição original.
Matriz final de ataque à questão
Quando a banca propuser uma substituição ou reescrita, percorra:
- Comando: pede apenas correção ou também preservação de sentido?
- Estrutura: sujeito, verbo, complementos, modificadores e orações.
- Referência: quem/que cada pronome ou expressão retoma?
- Lógica: adição, oposição, causa, consequência, condição, concessão, conclusão?
- Modalidade: certeza, possibilidade, obrigação, recomendação?
- Tempo/aspecto: evento concluído, habitual, em curso, projetado?
- Escopo: o que
não,só,até,quase,tambémalcançam? - Norma: ortografia, pontuação, concordância, regência, crase, colocação.
- Foco: ativa/passiva, ordem e pontuação mudaram a hierarquia?
- Teste de retorno: existe um contexto em que uma versão seria verdadeira e a outra falsa?
Se existir, a equivalência falhou.
Pegadinhas integradas de alta frequência
| Troca | Risco |
|---|---|
alguns → todos | quantificação |
pode → deve | modalidade |
depois → porque | causalidade inventada |
mas → embora | hierarquia, modo e pontuação |
que → o qual | regência e antecedente |
| retirar vírgulas de adjetiva | restrição × explicação |
| ativa → passiva | foco e possível perda do agente |
| verbo → nome | tempo/agente/modalidade apagados |
| pronome → hiperônimo | referência e avaliação |
| trocar verbo por “sinônimo” | regência, aspecto e participantes |
mover não/só | escopo |
| frase gramatical → “equivalente” | sentido pode ter mudado |
Fechamento: no TCE/MA, Língua Portuguesa deve ser estudada como um sistema integrado. Interpretação controla a equivalência; morfologia sustenta a sintaxe; sintaxe condiciona pontuação, concordância, regência, crase e colocação; léxico, conectores, tempos e operadores determinam sentido e escopo. A resposta segura é aquela que passa por todos esses filtros, não a que apenas “soa bem”.
Abrangência
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Referências
- CENTRO BRASILEIRO DE PESQUISA EM AVALIAÇÃO E SELEÇÃO E DE PROMOÇÃO DE EVENTOS (CEBRASPE). Edital nº 1 — TCE/MA, de 6 de julho de 2026. Objetos de avaliação de Língua Portuguesa e critérios da prova discursiva. Disponível no PDF oficial do concurso. Acesso em: 3 set. 2026.
- BRASIL. Decreto nº 6.583, de 29 de setembro de 2008. Promulga o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Disponível no Planalto. Acesso em: 3 set. 2026.
- ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), edição digital 2025–2026. Disponível em Vocabulário Ortográfico e busca no VOLP. Acesso em: 3 set. 2026.
- BRASIL. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Manual de Redação da Presidência da República. 3. ed., revista, atualizada e ampliada. Brasília: Presidência da República, 2018. Consulta oficial disponível em gov.br. Acesso em: 3 set. 2026.
- AZEREDO, José Carlos de. Gramática Houaiss da língua portuguesa. 6. ed. rev. Parábola Editorial, 2026.
- BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 40. ed. Nova Fronteira, 2024.
- CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. Lexikon, 2016.