Colocação pronominal
Por que se escreve “Entregaram-me o parecer”, mas “Não me entregaram o parecer”? Nos dois exemplos, me continua ligado ao verbo entregar e indica o destinatário. O que mudou foi a estrutura da oração: a palavra não cria uma condição que leva o pronome para antes do verbo. Os exemplos explicativos deste capítulo são hipotéticos.
Esse contraste mostra o mecanismo central. Antes de decorar listas, pergunte qual pronome está ligado a qual verbo, em que oração e em que forma verbal. Só depois decida a posição. Em questões de reescrita, há ainda uma segunda camada: uma posição pode ser correta sem ser a única possível, e mover o pronome não autoriza mudar sua função, seu referente ou o sentido da frase.
1. O que está sendo colocado?
Em “entregaram a mim”, mim tem autonomia de pronúncia e vem precedido de a, uma preposição, palavra de ligação. Em “entregaram-me”, me se apoia na pronúncia do verbo. A primeira é uma forma tônica; a segunda, átona, isto é, sem acento próprio na fala. Não se trata de ter ou não acento gráfico: ele é tônico mesmo sem esse sinal.
As formas me, te, se, o, a, os, as, lhe, lhes, nos e vos constituem os pronomes pessoais oblíquos átonos estudados aqui. Também são chamados de clíticos, porque dependem, na pronúncia, de outra palavra, neste assunto o verbo. Podem completar o verbo, como em entregaram-me, ou integrar uma construção verbal, como em arrependeu-se.
Formas como mim, ti, si, ele, ela, nós, vós, comigo, contigo, consigo, conosco e convosco, quando aparecem em construções preposicionadas, não recebem a mesma classificação de posição. “O parecer foi entregue a ela” não contém ênclise só porque ela aparece depois do verbo: ela é forma tônica, não um clítico posposto.
Escolher o pronome vem antes de escolher a posição
Compare “entregou o parecer ao candidato”. O parecer é aquilo que foi entregue: objeto direto, complemento ligado normalmente ao verbo sem preposição exigida. O candidato é o destinatário, introduzido por a: objeto indireto nessa construção. A regência é a relação pela qual o verbo seleciona seus complementos e, quando necessário, suas preposições.
Podemos retomar o parecer por o: “entregou-o ao candidato”; ou retomar o destinatário por lhe: “entregou-lhe o parecer”. A preposição não aparece separadamente em lhe, mas a relação indireta permanece. Já “informou o candidato” permite “informou-o”: ser pessoa não transforma o complemento em objeto indireto.
O, a, os e as são formas típicas de objeto direto; lhe e lhes substituem certos objetos indiretos, não qualquer complemento humano nem qualquer termo preposicionado. Me, te, nos e vos podem exercer ambas as funções: “encontrou-me” contém objeto direto; “entregou-me o parecer”, objeto indireto. A função depende da construção, não apenas da forma do pronome.
Regência verbal e nominal aprofunda a escolha do complemento. Para colocação pronominal, conserve o esquema já reconhecido: mover lhe não autoriza trocá-lo por o, assim como acertar o hífen não corrige uma regência errada.
2. A unidade da decisão é a oração, não a palavra mais próxima
Pronome antes do verbo está em próclise: “Não me entregaram o parecer”. Pronome depois, ligado por hífen, está em ênclise: “Entregaram-me o parecer”. Pronome no interior de uma forma de futuro está em mesóclise: “Entregar-me-ão o parecer”.
| Posição | Relação com o verbo | Grafia do exemplo |
|---|---|---|
| Próclise | antes | não me entregaram, sem hífen |
| Ênclise | depois | entregaram-me, com hífen |
| Mesóclise | entre a base e a terminação do futuro | entregar-me-ão, com dois hífens |
Uma oração se organiza em torno de um verbo ou de um conjunto verbal que funciona como unidade. Um período pode reunir várias orações. A palavra ou expressão que condiciona a posição anterior recebe o nome de fator de atração ou atrator. O alcance desse fator é estrutural: ele atua na oração a que pertence, não simplesmente sobre todo pronome que venha depois no período.
Em “O parecer que me entregaram será revisto”, que me entregaram forma uma oração que caracteriza o parecer. O relativo que retoma esse nome e introduz a oração; é ele que explica a próclise de me. O futuro será, da oração principal, não transforma me entregaram em mesóclise.
O mesmo raciocínio evita um erro comum em “Não creio que a comissão se manifeste”. A negativa pertence à oração de creio. Na oração de manifeste, a conjunção que é o fator que introduz a dependência. Não é preciso imaginar que o não atravesse todas as fronteiras do período.
3. Fatores que levam claramente à próclise
Alguns contextos oferecem uma decisão forte no padrão formal tradicional. O ganho de tempo vem de reconhecer o mecanismo, não de tratar toda palavra anterior ao verbo como atrator.
Negação
Com verbo simples, palavra negativa anterior exige próclise: “Não me entregaram o parecer”; “Nunca lhe negaram acesso”; “Ninguém se manifestou”. A sequência não entregaram-me contraria esse padrão. Quando há infinitivo ou mais de um verbo, a negativa continua relevante, mas as posições possíveis da cadeia precisam ser examinadas nas seções 6 e 7.
Uma intercalação não apaga a negativa. Em “Nunca, segundo os autos, lhe comunicaram a decisão”, retirar o trecho entre vírgulas recupera “Nunca lhe comunicaram a decisão”. A estrutura principal permaneceu a mesma.
Subordinação e pronomes relativos
Na subordinação, uma oração exerce função dentro de outra ou estabelece com ela uma relação de dependência. Conjunções subordinativas fazem essa ligação. Quando pode situar o momento; embora, introduzir uma ressalva; se, uma condição; porque, uma causa; para que, uma finalidade. Antes do verbo da oração que introduzem, conduzem à próclise:
Quando nos convocarem, compareceremos.
Embora se reconheçam os avanços, persistem falhas.
A equipe conferiu os dados para que se evitassem erros.
A distância gráfica não desfaz a relação: “quando a comissão nos convocar” conserva o mesmo fator. A conjunção pode até estar subentendida em construções formais, como “Espero me enviem o parecer”, equivalente estruturalmente a “Espero que me enviem o parecer”.
Os pronomes relativos retomam um termo anterior e introduzem uma oração a respeito dele. Também levam à próclise nessa oração: “o documento que lhe enviaram”; “a repartição onde se trabalha”; “a servidora a quem se referiram”. O importante não é memorizar a palavra que, mas reconhecer quando ela funciona como relativo.
Uma vírgula de intercalação tampouco elimina esse vínculo: “o parecer que, segundo a comissão, lhe enviaram” continua contendo o relativo que na mesma oração de enviaram.
Interrogação, exclamação e desejo
Em “Quem lhe entregou o parecer?”, o interrogativo quem pede a identificação de alguém e leva o pronome para antes do verbo. O mesmo ocorre com palavras interrogativas como quando, onde, como e por que: “Por que se recusou a responder?”. O ponto de interrogação sozinho não cria atração: “Entregaram-lhe o parecer?” continua sendo possível porque a pergunta não foi introduzida por palavra interrogativa atrativa.
Exclamações introduzidas por palavras desse tipo também empregam próclise: “Como me surpreendeu a resposta!”. Nas orações optativas, que exprimem desejo, a tradição igualmente emprega a posição anterior: “Deus o proteja”; “Que a sorte nos acompanhe”. O que importa é a construção de desejo, não o sinal de exclamação isoladamente.
4. Onde a lista de “atratores” não basta
Há contextos em que a posição depende da pausa, da estrutura ou da orientação normativa adotada. Neles, transformar uma preferência em regra absoluta é tão arriscado quanto ignorar uma regra forte.
Advérbios: sem pausa, com pausa e com intercalação
Advérbios acrescentam circunstâncias ou avaliações: aqui indica lugar; hoje, tempo; talvez, dúvida. Sem pausa antes do verbo, a orientação formal tradicional usa a próclise: “Aqui se trabalha com sigilo”; “Hoje se divulgará o resultado”; “Talvez lhe concedam novo prazo”. Expressões com a mesma função, como em breve, entram na mesma análise.
Compare “Hoje se divulgará o resultado” com “Hoje, divulgar-se-á o resultado”. Na segunda, a pausa separa o advérbio e deixa o futuro simples sem aquele fator imediato; a mesóclise passa a ser uma solução tradicional. A conclusão não é que toda vírgula desliga todo atrator. Negativas, relativos e conjunções subordinativas mantêm sua relação estrutural mesmo quando há um inciso entre eles e o verbo.
Por isso, “Para tanto, faz-se necessária a revisão” e “O parecer, contudo, foi-lhe enviado” não devem ser corrigidos mecanicamente para próclise só porque existe uma expressão antes do verbo. Retire o inciso ou a expressão deslocada, reconstrua a oração e verifique sua função. Pontuação aprofunda pausa e intercalação.
Indefinidos, demonstrativos e estruturas correlativas
Palavras como alguém, tudo, todos, poucos e ambos, quando antecedem o verbo nas construções registradas pela tradição, favorecem a próclise: “Alguém lhe comunicou o resultado”; “Todos se prepararam”; “Ambos me avisaram”. Os indefinidos, como alguém e poucos, apresentam pessoas ou quantidades sem identificá-las precisamente; ambos significa os dois.
Demonstrativos neutros como isto, isso e aquilo, capazes de retomar uma situação inteira, também aparecem nesse padrão: “Isso me preocupa”. Mas “Comunicaram-lhe tudo” não recebe atração retroativa de uma palavra que vem depois do verbo.
Construções correlativas, organizadas em pares, podem favorecer a próclise: “Ou se aprova a proposta, ou se apresenta alternativa”; “Ora se manifesta, ora se cala”. É o conjunto ou… ou ou ora… ora que importa. Um ou isolado não cria uma obrigação universal.
Início de oração, sujeito expresso e coordenação
No padrão formal conservador, não se inicia oração com pronome átono. Assim, “Entregaram-me o parecer” é a resposta segura para uma cobrança estritamente tradicional, não Me entregaram o parecer. A próclise inicial, porém, é produtiva no português brasileiro; reconhecer o uso real não significa adotá-lo quando o comando exige a convenção conservadora.
Com sujeito expresso antes do verbo, pode haver alternância em diferentes descrições: “A comissão se manifestou” e “A comissão manifestou-se”. O sujeito, por estar anteposto, não é um atrator absoluto. Por isso, uma questão sobre obrigatoriedade deve ser resolvida procurando um fator mais inequívoco ou a orientação explicitada no comando.
O imperativo dirige uma ordem, pedido ou orientação. No afirmativo, sem outro fator, usa-se ênclise: “Envie-me o parecer”. A negativa muda a estrutura: “Não me envie o parecer”. A fórmula “imperativo sempre depois” falha porque ignora o fator negativo.
Conjunções coordenativas, como e e mas, ligam termos ou orações sem criar por si sós a dependência típica das subordinativas. Não atraem automaticamente: “Leu o parecer e encaminhou-o”; “Leu o parecer, mas recusou-se a assiná-lo”. Em “Não o analisou nem o encaminhou”, a segunda próclise decorre do valor negativo de nem, não do simples fato de haver coordenação.
5. Futuro: quando aparece a mesóclise
A mesóclise é possível com o futuro do presente do indicativo (entregarei, entregará) e o futuro do pretérito do indicativo (entregaria, entregariam). Para compreender a forma, separe a base da terminação: entregar + ei passa a entregar-me-ei; entregar + iam, a entregar-me-iam. Não se trata de cortar o verbo arbitrariamente no meio das letras.
Há bases reduzidas: direi forma dir-lhe-ei; farei, far-lhe-ei; trarei, trar-lhe-ei. Com o, a, os e as, a grafia também se ajusta: entregá-lo-ei, conforme a seção 8.
No padrão tradicional, diante de futuro simples sem fator de próclise, a solução conservadora de referência é a mesóclise: “Comunicar-lhe-ei a decisão”. Se surgir um atrator, a próclise prevalece: “Não lhe comunicarei a decisão”; “O resultado que lhe comunicarei será definitivo”. As formas comunicarei-lhe e comunicaria-lhe, com ênclise simples ao futuro, são rejeitadas por essa orientação.
Isso não significa que toda frase no futuro tenha de exibir mesóclise. O Manual de Revisão da FUNAG registra próclise quando um pronome pessoal reto antecede essas formas: “Eu lhe comunicarei a decisão”. Também é possível reestruturar a frase: “Vou comunicar-lhe a decisão” usa ir + infinitivo e evita a mesóclise sem criar combinações impossíveis como vou comunicar-lhe-ei.
Sentido futuro não é tempo verbal futuro. Em “Talvez lhe concedam novo prazo amanhã”, concedam está no presente do subjuntivo, forma que apresenta uma possibilidade, embora o acontecimento esteja projetado para amanhã. Não há mesóclise. Ela também não se aplica ao futuro do subjuntivo, como quando entregarem: use “quando me entregarem o parecer”.
6. Infinitivo, gerúndio e particípio não obedecem à mesma regra
Infinitivo, gerúndio e particípio são formas nominais do verbo: apresentam o processo sem o mesmo conjunto de marcas de tempo e modo das formas como entregaram ou entregariam. Em colocação pronominal, o erro nasce muitas vezes de transportar para uma delas a regra de outra.
Infinitivo: maior liberdade de posição
O infinitivo nomeia o processo: entregar, fazer, partir, pôr. Pode receber ênclise: “É importante entregar-lhe o parecer”; “É importante informá-lo”. Quando precedido de preposição, existem alternâncias registradas como “Trabalhou para o ajudar” e “Trabalhou para ajudá-lo”.
Mesmo a negativa não proíbe toda ênclise ao infinitivo. São possíveis, em construções reconhecidas pela tradição, “para não o prejudicar” e “para não prejudicá-lo”. Isso não autoriza não prejudicou-o, porque prejudicou não é infinitivo, nem prejudicar-lhe quando a intenção é retomar um objeto direto.
Com preposição a e os pronomes o, a, os, as, a orientação tradicional favorece a ênclise: “Começou a examiná-lo”. Não generalize essa preferência para qualquer preposição ou qualquer pronome.
O infinitivo pessoal relaciona o processo a um sujeito determinado e pode variar para indicar pessoa e número: é a flexão, como em prepararmos. Em “Para nos prepararmos bem, começaremos hoje”, nos é o pronome átono; prepararmos corresponde à primeira pessoa do plural. Não o confunda com nós, forma tônica, nem duplique o pronome em para nos prepararmos-nos. As condições de flexão são aprofundadas em Verbo como classe de palavras.
Gerúndio: desenvolvimento e o caso de “em”
O gerúndio, como examinando ou tratando, apresenta o processo em desenvolvimento ou em relação com outro. Sem atrator, admite ênclise: “Examinando-o com cuidado, encontrou a falha”. Com negativa, emprega-se próclise: “Não o encontrando, avisou a chefia”.
Há um caso especialmente estável: em + gerúndio exige próclise na construção tradicional. Compare “Tratando-se de urgência, decida hoje” com “Em se tratando de urgência, decida hoje”. A presença de em impede copiar a posição e escrever em tratando-se.
Particípio: ele próprio não recebe o clítico
O particípio aparece em tinha entregado, foi entregue, havia feito; suas formas podem ser regulares, como analisado, ou irregulares, como feito e escrito. Na colocação normativa, o particípio não recebe pronome átono depois dele: tinha entregado-me é inadequado. Numa locução, o pronome se apoia no verbo auxiliar: “Tinha-me entregado o parecer”.
Se o particípio estiver isolado, usa-se uma expressão tônica: “Dada a mim a oportunidade, apresentei a proposta”, não dada-me a oportunidade. A forma escrita do verbo, sozinha, não decide a classificação. Em “Entregue-me a ata”, entregue é imperativo, uma ordem. Em “Entregue a ata ao destinatário, encerrou-se o atendimento”, entregue é particípio e apresenta a entrega como concluída. São estruturas diferentes.
7. Locuções e cadeias verbais: escolha primeiro o ponto de apoio
Em “A comissão deve informar o resultado”, informar apresenta o processo principal; deve acrescenta obrigação e recebe a marca de pessoa. O conjunto é uma locução verbal: deve funciona como auxiliar e informar, como verbo principal. Outros exemplos são estava examinando e tinha informado.
O pronome pode completar o verbo principal mesmo quando se liga graficamente ao auxiliar. Em “Pode-me enviar o parecer”, me continua sendo o destinatário de enviar. Essa diferença entre função sintática e ponto de apoio gráfico explica por que localizar apenas o hífen não basta.
Para o infinitivo e o gerúndio, pense em três pontos tradicionais possíveis na cadeia: antes do auxiliar, quando a estrutura licencia próclise; depois do auxiliar, desde que não haja atrator que a impeça; e depois do principal, em ênclise. O contexto elimina ou conserva essas posições. Essa arquitetura é mais segura do que decorar uma forma única para toda locução.
Principal no infinitivo ou no gerúndio
No padrão conservador, sem atrator, a ênclise pode ocorrer no auxiliar ou no principal: “Pode-me enviar o parecer” / “Pode enviar-me o parecer”. Com gerúndio: “Estava-me enviando o parecer” / “Estava enviando-me o parecer”.
Se houver fator que exige próclise, ele impede a ênclise imediata ao auxiliar, mas não elimina a possibilidade de ênclise ao infinitivo ou ao gerúndio:
| Forma do principal | Próclise ao auxiliar | Ênclise ao principal |
|---|---|---|
| Infinitivo | Não me pode enviar o parecer. | Não pode enviar-me o parecer. |
| Gerúndio | Não me estava enviando o parecer. | Não estava enviando-me o parecer. |
Assim, não pode-me enviar e não estava-me enviando são inadequados nessa orientação, porque põem ênclise no auxiliar imediatamente depois da negativa. Já “Ninguém o poderia impedir” e “Ninguém poderia impedi-lo” preservam o mesmo objeto direto em duas posições admitidas para a locução.
A justificativa oficial do CESPE para o item 12 de um concurso de Escrivão do Departamento de Polícia Federal explicita esse ponto: diante de uma locução com infinitivo e negativa, a banca reconheceu tanto a próclise ao auxiliar quanto a ênclise ao infinitivo. A presença de um atrator não torna automaticamente única a posição do pronome em toda a cadeia.
Principal no particípio e auxiliar no futuro
Com particípio, a posição posterior ao principal desaparece: “Tinha-me enviado o parecer”; “Não me tinha enviado o parecer”. Não se admite tinha enviado-me.
Se o auxiliar estiver no futuro, são as regras do auxiliar que contam. “Ter-me-ia enviado o parecer” contém mesóclise na forma teria, não no particípio enviado. Com negativa: “Não me teria enviado o parecer”. Portanto, uma locução pode conter mesóclise no auxiliar flexionado no futuro; ela não se aplica indistintamente ao infinitivo, ao gerúndio ou ao particípio.
Três verbos: siga a arquitetura da cadeia
Em “Pode ter-se manifestado”, pode apresenta possibilidade; ter ajuda a formar um tempo composto, isto é, uma construção com ter ou haver seguido de particípio; manifestado é o particípio. O pronome se apoia no infinitivo ter, não no particípio. Isso explica por que pode ter manifestado-se é inadequado.
Com negativa, são possíveis no padrão considerado aqui “Não se pode ter manifestado” e “Não pode ter-se manifestado”. Em “Deveria ter-lhe comunicado a decisão”, lhe se liga graficamente ao infinitivo auxiliar ter e continua indicando a quem a decisão seria comunicada. A quantidade de verbos não cria uma regra nova; apenas aumenta os pontos que precisam ser classificados.
A posição entre os verbos no português brasileiro
Em “Pode me enviar o parecer”, sem hífen, o pronome aparece antes do principal; em “pode ter se manifestado”, aparece entre ter e o particípio. Essas posições são produtivas no português brasileiro. Elas não equivalem graficamente a pode-me enviar ou ter-se manifestado, mas tampouco colocam o pronome depois do particípio.
O Manual de Revisão da FUNAG adota uma orientação editorial conservadora e não recomenda, para seu padrão formal, a próclise ao principal sem hífen em locuções. A própria existência dessa recomendação não autoriza convertê-la em descrição de todos os usos do português brasileiro. Ao redigir segundo um padrão conservador, prefira as posições tradicionais apresentadas acima. Ao julgar uma frase já escrita, observe o modelo de língua e o registro, isto é, o grau de formalidade, definidos pelo comando. Frequência de uso, correção dentro de um modelo e adequação ao gênero são critérios diferentes.
8. A posição também pode mudar a grafia
Quando o, a, os, as ficam depois do verbo, a união pode alterar a forma escrita. O mecanismo depende do final verbal; ele não muda, por si só, a função do pronome nem seu referente, a pessoa ou coisa retomada.
Depois de r, s ou z: lo, la, los, las
Quando a forma verbal termina em r, s ou z, essa consoante cai e o pronome passa a começar por l:
| União | Resultado |
|---|---|
| entregar + o | entregá-lo |
| fazer + a | fazê-la |
| partir + os | parti-los |
| fiz + o | fi-lo |
| pôs + a | pô-la |
A acentuação depende da forma resultante: não basta apagar a consoante. Entregá- e fazê- recebem acento; parti- e fi- não o recebem nesses exemplos. Na mesóclise, a transformação ocorre na base anterior ao pronome: entregar + o + ei → entregá-lo-ei. Na próclise, não há esse encontro final: “o entregarei”, sem transformar o em lo.
Depois de som nasal: no, na, nos, nas
Após terminações nasais como -m, -ão e -õe, os pronomes passam a no, na, nos, nas, sem eliminar a terminação do verbo: fizeram + o → fizeram-no; dão + a → dão-na; põem + os → põem-nos.
Em “Os relatórios estão prontos; põem-nos à disposição”, nos pode ser a forma de os, retomando os relatórios. Em outro contexto, nos pode significar a nós. É o referente que resolve a interpretação; a aparência gráfica não basta.
As demais formas e “-mos + nos”
Não aplique a transformação de o/a a me, te, se, lhe, lhes, nos e vos: entregar-lhe, informou-nos e referiu-se seguem outros encontros.
Há, porém, um ajuste próprio de -mos + nos: cai o s final da forma verbal, como em preparamos + nos → preparamo-nos e damos + nos → damo-nos. Não se escreve preparamos-nos. Compare preparamos + os → preparamo-los: aí os retoma algo masculino plural, e não a primeira pessoa do plural.
As regras gerais de acentuação são aprofundadas em Ortografia oficial. Em colocação pronominal, o essencial é refazer a grafia sempre que uma reescrita unir o, a, os, as ao final do verbo.
9. Reescrever exige preservar função, concordância, referente e sentido
Colocação pronominal não termina quando o pronome chega ao lugar certo. Uma reescrita pode ter posição e hífen corretos e, ainda assim, mudar a função sintática, quebrar a concordância ou alterar o que o texto afirma.
“Se”: a posição não revela sozinha a função
Compare “Publicaram-se os resultados” com “Precisa-se de servidores”. Na primeira, os resultados são o sujeito paciente, aquilo que recebe o processo. O se é partícula apassivadora, marca da construção passiva, e o verbo concorda com os resultados. Na segunda, alguém precisa de servidores, mas esse alguém não é identificado: se é índice de indeterminação do sujeito; de servidores é complemento, não sujeito, e o verbo fica no singular.
A mesma forma se também aparece em outros mecanismos:
| Emprego | Como reconhecer no exemplo |
|---|---|
| Reflexivo | “O servidor se feriu”: ele feriu a si mesmo. |
| Recíproco | “Os candidatos se cumprimentaram”: um cumprimentou o outro. |
| Parte integrante de verbo pronominal | “A servidora se arrependeu”: o pronome integra arrepender-se nesse emprego. |
| Construção pronominal com regência própria | “A comissão se referiu ao processo”: conserva-se o esquema referir-se a. |
Referiu-se ao processo pode passar a referiu-se a ele, mas não a referiu-o com a mesma construção. Em “Trata-se de medidas urgentes”, de medidas urgentes também não é sujeito com o qual o verbo deva concordar; conserva-se o singular nesse uso de tratar-se de. Concordância verbal e nominal e Verbo como classe de palavras desenvolvem essas análises.
Se inserirmos a negativa em “Publicaram-se os resultados”, teremos “Não se publicaram os resultados”. A posição mudou; a função apassivadora e a concordância plural permaneceram. Seria inadequado escrever não se publicou os resultados ou concluir que todo se torna o verbo invariável. Em “Se a comissão se manifestar”, o primeiro se introduz condição; apenas o segundo integra a construção verbal cuja posição estamos analisando.
Combinações de pronomes: forma tradicional não dispensa clareza
A tradição registra combinações de dois complementos: mo, ma, mos, mas; to, ta, tos, tas; lho, lha, lhos, lhas; no-lo, no-la, no-los, no-las; vo-lo, vo-la, vo-los, vo-las. Não são combinações livres de quaisquer pronomes.
Em “Entregou-lho”, lho pode reunir lhe + o: entregou o documento a ele ou a ela. Não se forma entregou-lhe-o por simples justaposição. Como essas combinações são pouco usuais no português brasileiro contemporâneo, “Entregou-lhe o documento” costuma ser mais transparente. Se o destinatário não estiver claro, explicite-o: “Entregou o documento à servidora”.
Mover o pronome tampouco resolve um referente ambíguo. Em “A diretora informou-lhe que a servidora seria convocada”, é preciso saber a quem lhe se refere; a posição antes ou depois de informou não fornece essa informação. Coesão textual aprofunda as relações de retomada.
Faça a reescrita inteira, não só o deslocamento
Parta de “Não lhe comunicarei a decisão”. A negativa exige próclise; lhe continua sendo o destinatário; comunicarei está no futuro do presente. Retirada a negativa e mantido o padrão tradicional sem outro fator de próclise, a forma passa a “Comunicar-lhe-ei a decisão”. A colocação foi ajustada, mas o sentido mudou de negativo para afirmativo. Correção gramatical não garante equivalência de sentido.
Se a transformação produzir “Não lhe tinha comunicado a decisão”, o pronome fica antes do auxiliar e não pode ser levado para depois do particípio. Também mudou a referência temporal. Diante de uma reescrita, percorra o mecanismo em ordem:
- Preserve a relação: identifique função do pronome, referente, concordância e sentido que o comando exige manter.
- Refaça a estrutura: delimite a oração, localize fatores de próclise e classifique a forma de cada verbo; em locuções, separe auxiliar e principal.
- Só então refaça a escrita: escolha a posição admitida e ajuste hífens e formas como -lo ou -no, sem transformar uma alternativa válida em obrigação exclusiva.
Esse percurso é o que separa reconhecer o nome de uma posição de justificar por que ela funciona — e de perceber quando outra posição também funciona.
Referências
Referências
- CENTRO BRASILEIRO DE PESQUISA EM AVALIAÇÃO E SELEÇÃO E DE PROMOÇÃO DE EVENTOS. Edital nº 1 — TCE/MA, de 6 de julho de 2026. Seção 14.2.3, Conhecimentos gerais, Língua Portuguesa, item 5.8: colocação dos pronomes átonos; recorte comum aos cargos 1 e 16. Acesso em 5 set. 2026.
- FUNDAÇÃO ALEXANDRE DE GUSMÃO. Colocação pronominal — Manual de Revisão. Página revista em 5 jun. 2020. Orientação formal tradicional: fatores de próclise, futuros, infinitivo, gerúndio, particípio e locuções; distingue suas recomendações dos usos brasileiros que registra. Acesso em 6 set. 2026.
- CENTRO DE SELEÇÃO E DE PROMOÇÃO DE EVENTOS. Justificativas de alterações de gabarito — Departamento de Polícia Federal, Escrivão. Item 12, segunda página do arquivo: reconhecimento de posições alternativas em locução com infinitivo apesar da negativa. Acesso em 6 set. 2026.
- BRASIL. Decreto nº 6.583, de 29 de setembro de 2008 — Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Anexo I, bases VIII, X e XVII: acentuação de formas verbais ligadas a pronomes e emprego do hífen na ênclise e na mesóclise. Texto atualizado. Acesso em 6 set. 2026.
- LOURO, A. Tavares. Damos-vos. Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, 26 mar. 2004. Explica a perda do s em -mos + nos e sua manutenção antes de vos. Acesso em 5 set. 2026.
- MARTINS, Ana Luísa Theza; VIANNA, Juliana Barbosa de Segadas. A Colocação Pronominal no Português Brasileiro de Nova Iguaçu: o que os dados empíricos revelam da comparação entre fala e escrita?. Revista de Estudos da Linguagem, volume 30, número 2, 2022, páginas 962–996; página publicada em 6 out. 2024. Estudo de construções com um só verbo, utilizado para a distinção entre descrição de uso e prescrição, não como prova das regras específicas de locuções. Acesso em 5 set. 2026.