7. Verbo como classe de palavras

Reconhecimento, estrutura, formas nominais, classificações, auxiliares, vozes, valores de se, predicação e impessoalidade do verbo.

Ler sem distrações

Verbo como classe de palavras

“A análise avançou” e “A análise permaneceu difícil” têm verbos; “a análise do caso” não tem verbo só porque nomeia uma ação. O ponto de partida é separar o que a palavra significa do trabalho gramatical que ela realiza.

O verbo apresenta um processo — ação, estado, mudança de estado ou fenômeno — e pode receber marcas de pessoa, número, tempo e modo. Assim, investigar, permanecer, ficar e chover podem ser verbos em seus contextos. Os exemplos deste capítulo são hipotéticos.

Esta unidade estuda o verbo como classe de palavras. O emprego sistemático dos tempos e modos pertence ao assunto próprio; aqui aparecem apenas as informações necessárias para reconhecer a forma verbal e entender sua estrutura.

1. Reconhecer o verbo antes de decorar nomes

Compare:

A equipe analisa o vestígio.
As equipes analisaram o vestígio.
A equipe está atenta.
Choveu durante a diligência.

Analisa/analisaram apresentam uma ação; está, um estado; choveu, um fenômeno. O verbo não é, portanto, “a palavra que indica ação”.

A forma verbal pode variar conforme pessoa e número — eu analiso / nós analisamos — e também segundo tempo e modo — analiso / analisava / analise. O estudo detalhado dos valores temporais e modais será feito em U005; por ora, basta perceber que essas categorias são expressas pelo verbo.

1.1 Como a forma verbal se organiza

Em cantávamos, a análise tradicional separa partes com funções diferentes:

ParteFunção
cant-radical: concentra o significado lexical básico
-a-vogal temática: associa o verbo à 1ª conjugação
canta-tema: radical + vogal temática
-va-desinência modo-temporal: marca tempo e modo
-mosdesinência número-pessoal: marca pessoa e número

Essa segmentação é um modelo: formas como sou e fiz não se deixam decompor com a mesma transparência.

A NGB agrupa os verbos em três conjugações, conforme o infinitivo: -ar (investigar), -er (vender) e -ir (partir). Pôr e seus derivados pertencem historicamente à segunda conjugação; não formam uma quarta.

A sílaba tônica também pode ajudar na descrição. Em canto, a tonicidade cai no radical: forma rizotônica. Em cantamos, cai fora dele: forma arrizotônica. A classificação se aplica à forma, não ao verbo inteiro.

2. Formas finitas e formas nominais

Uma forma como investigávamos já traz pessoa, número, tempo e modo: é finita. Já investigar, investigando e investigado não apresentam sozinhas esse conjunto completo de marcas; são as formas nominais ou não finitas: infinitivo, gerúndio e particípio.

2.1 Infinitivo: impessoal ou pessoal

O infinitivo apresenta o processo sem marcar, por si, um tempo e um modo determinados:

É necessário investigar.
É necessário nós investigarmos.
Antes de os agentes saírem, houve a conferência.

No primeiro exemplo, investigar tem valor geral: infinitivo impessoal. No segundo, há sujeito próprio (nós): infinitivo pessoal. No terceiro, os agentes é sujeito de saírem, e a terminação mostra o plural.

A existência de sujeito não exige sempre uma terminação visível. Em é necessário eu investigar, eu é sujeito de investigar, embora a forma coincida com o infinitivo não flexionado.

Duas armadilhas merecem atenção:

  • Em antes de os agentes saírem, a preposição de introduz a construção; por isso, não se deve transformar automaticamente de os em dos se os agentes funciona como sujeito do infinitivo.
  • Em os agentes devem investigar, devem investigar funciona como uma unidade verbal: o auxiliar devem já recebe pessoa e número, e não se usa devem investigarem.

Há contextos em que infinitivo flexionado e não flexionado são admitidos, conforme a estrutura e o destaque dado ao sujeito. A prova exige análise da construção, não a regra falsa “plural próximo = infinitivo no plural”.

2.2 Gerúndio: processo em desenvolvimento

O gerúndio termina tipicamente em -ndo: investigando, correndo, partindo. Pode indicar desenvolvimento, simultaneidade, modo ou outra relação definida pelo contexto:

A equipe está investigando o caso.
O servidor saiu carregando os documentos.

O gerúndio não determina sozinho o tempo. Amanhã, às dez horas, a equipe estará investigando apresenta um processo em curso num ponto futuro.

Não confunda gerúndio com gerundismo. A crítica ao gerundismo recai sobre cadeias desnecessárias como vou estar encaminhando quando se quer apenas dizer encaminharei ou vou encaminhar. Isso não torna inadequado todo uso do gerúndio.

2.3 Particípio: processo concluído ou estado resultante

O particípio aparece em construções como:

A equipe tinha analisado os autos.
Os autos foram analisados.
Concluída a perícia, a equipe deixou o local.

Os particípios regulares terminam frequentemente em -ado ou -ido; há irregulares como feito, escrito, visto, posto, aberto.

Com ter ou haver em tempo composto, o particípio permanece invariável: as equipes tinham analisado os autos. Em construção passiva ou quando funciona como característica, concorda com o nome: as peças foram analisadas; peças analisadas.

Alguns verbos têm mais de um particípio aceito, como aceitado/aceito e entregado/entregue. A orientação tradicional associa com frequência a forma regular a ter/haver e a irregular a ser/estar, mas o uso consagrado traz exceções — tinha pago, por exemplo. Não se inventa particípio curto por analogia: na escrita formal, tinha chegado e tinha trazido, não tinha chego ou tinha trago.

3. Regular, irregular, anômalo, defectivo e abundante

Esses rótulos descrevem comportamentos diferentes.

  • Regular: segue o paradigma de sua conjugação, como amar, vender, partir.
  • Irregular: apresenta alteração de radical ou desinência em parte do paradigma, como fazer/faço/fiz e pedir/peço.
  • Anômalo: possui alterações especialmente profundas; ser e ir são os exemplos mais estáveis na tradição.
  • Defectivo: apresenta lacunas no paradigma tradicional. Reaver, por exemplo, não se conjuga simplesmente como haver com re- em todas as pessoas.
  • Abundante: admite formas equivalentes em alguma flexão, especialmente no particípio.

Um particípio irregular não torna automaticamente todo o verbo “irregular” na mesma acepção. Pedir é verbo irregular por peço, mas tem particípio regular pedido.

Também não confunda verbo defectivo com verbo impessoal. Defectividade diz respeito a lacunas de conjugação; impessoalidade, à ausência de sujeito em determinado emprego.

4. Verbo principal, auxiliar e locução verbal

Compare:

A equipe analisa o laudo.
A equipe vai analisar o laudo.
O laudo foi analisado pela equipe.

No primeiro caso, há um verbo simples. Nos demais, dois verbos atuam juntos: um auxiliar recebe marcas gramaticais e o verbo principal apresenta o processo central.

Na locução verbal, o conjunto funciona como uma unidade do predicado: vai analisar, foi analisado, tinha concluído. O auxiliar pode contribuir para tempo, voz, aspecto ou modalidade.

Aspecto é a maneira de apresentar o desenvolvimento interno do processo: início, continuidade, repetição, conclusão. Modalidade exprime valores como obrigação, possibilidade ou intenção. Compare começou a investigar, continua investigando, deve investigar e pode investigar.

Nem toda sequência de verbos forma locução. Em o investigado tentou fugir, tentar mantém sentido próprio e a análise pode reconhecer duas relações verbais. Para prova, observe se o primeiro verbo atua como auxiliar ou preserva conteúdo lexical independente.

5. Predicação e transitividade: o verbo muda conforme o contexto

A classificação do verbo depende do emprego concreto. Compare o agente assistiu à sessão e o médico assistiu o ferido: a forma assistir aparece com relações diferentes.

Transitividade descreve como o verbo se relaciona com complementos. No recorte mínimo necessário para esta unidade:

ConstruçãoClassificação
A equipe analisou o laudo.verbo transitivo direto — VTD
A equipe precisa de apoio.verbo transitivo indireto — VTI
A equipe entregou o laudo à chefia.verbo transitivo direto e indireto — VTDI
A criança dormiu.verbo intransitivo — VI
A servidora permanece atenta.verbo de ligação — VL

O verbo de ligação relaciona o sujeito a uma característica ou estado; atenta é predicativo do sujeito, não objeto. Já termos como durante a noite ou com cuidado podem acrescentar circunstâncias sem se tornarem objetos.

A classificação não pertence eternamente ao dicionário: o bebê acordou e o ruído acordou o bebê mostram acordar sem e com objeto direto. O estudo sistemático da estrutura do período fica em U009; regência, em U014. Aqui, esses conceitos servem apenas para reconhecer o comportamento da classe verbal.

6. Voz ativa e voz passiva

A voz mostra como a oração organiza os participantes do processo.

Ativa: A equipe analisou o laudo.
Passiva analítica: O laudo foi analisado pela equipe.
Passiva sintética: Analisaram-se os laudos.

Na ativa, o sujeito (a equipe) é apresentado como agente. Na passiva, o sujeito (o laudo/os laudos) é apresentado como participante que sofre ou recebe o processo. Na passiva analítica, ser + particípio é a estrutura típica; pela equipe é agente da passiva. Na sintética, usa-se se com verbo que admite esse tipo de construção, e o verbo concorda com o sujeito paciente: analisou-se o laudo / analisaram-se os laudos.

Nem toda oração ativa admite passiva com naturalidade. A transformação depende da estrutura do verbo: verbos sem objeto direto, por exemplo, não fornecem automaticamente um termo que possa tornar-se sujeito paciente.

6.1 Passiva não é simples descrição de estado

Compare:

O portão foi fechado pelo agente.
O portão está fechado.

A primeira construção apresenta o evento de fechar e admite agente da passiva. A segunda tende a apresentar o estado resultante. A forma do particípio, sozinha, não decide a análise.

7. O que o se está fazendo?

A mesma forma se pode desempenhar trabalhos diferentes. Classifique pela estrutura inteira.

7.1 Partícula apassivadora

Publicaram-se os laudos.

A construção pode ser convertida em os laudos foram publicados. Os laudos é sujeito paciente; por isso o verbo vai ao plural. O se marca a passiva sintética.

7.2 Índice de indeterminação do sujeito

Precisa-se de peritos.

Precisar de exige preposição. De peritos não se torna sujeito paciente; o verbo permanece na terceira pessoa do singular. O agente não é identificado.

7.3 Reflexivo e recíproco

A investigadora se observou no espelho.
Os colegas se cumprimentaram.

No reflexivo, o complemento remete ao próprio sujeito; no recíproco, os participantes agem uns sobre os outros.

7.4 Parte do verbo ou elemento de realce

Há verbos que, em determinado sentido, são usados com pronome: arrepender-se, queixar-se. O pronome integra o verbo pronominal. Em outros contextos, se pode funcionar como elemento de realce ou participar de estruturas estudadas em outros assuntos.

E nem todo se é pronome. Em se houver indícios, a diligência prosseguirá, se introduz uma condição e pertence à classe das conjunções, que será aprofundada em U008.

8. Verbos sem sujeito: impessoalidade

Um verbo impessoal não tem sujeito e, como regra, fica na terceira pessoa do singular. O caso mais cobrado é haver com sentido de existir, ocorrer ou indicar tempo transcorrido:

Havia indícios no local.
Houve duas diligências.
Há três dias não chove.

Não se escreve, nesses sentidos, haviam indícios ou houveram diligências. O termo seguinte é objeto direto, não sujeito.

Se haver integra uma locução verbal impessoal, a impessoalidade alcança o auxiliar:

Pode haver novos indícios.
Deve haver testemunhas.

Não se usa podem haver ou devem haver nesses casos.

Mas haver também pode ser pessoal. Em os peritos haviam concluído a análise, atua como auxiliar de tempo composto e concorda com o sujeito os peritos. Em eles hão de concluir, integra outra construção pessoal. A forma do verbo não basta: descubra o sentido e a função.

8.1 Fazer e verbos meteorológicos

Fazer, quando indica tempo decorrido ou condição meteorológica, é impessoal:

Faz dois anos que a unidade mudou.
Fazia muito frio.

O mesmo vale para verbos meteorológicos em sentido próprio: choveu ontem; anoiteceu cedo. Se usados figuradamente com sujeito, podem tornar-se pessoais: choveram críticas; amanhecemos cansados.

Ser em indicações de hora, data ou distância apresenta comportamento próprio de concordância (é uma hora / são duas horas). Não o trate como simples cópia da regra de haver.

8.2 Impessoal não é unipessoal

Verbo unipessoal possui sujeito, mas seu uso se concentra na terceira pessoa, como latir em os cães latiram. Já havia provas, no sentido de existir, não tem sujeito. Essa distinção explica por que plural semântico não basta para flexionar o verbo impessoal.

9. Roteiro de análise para a prova

Quando a questão destacar um verbo, siga esta ordem:

  1. Localize o processo: a palavra realmente funciona como verbo no contexto?
  2. Veja a forma: finita, infinitivo, gerúndio ou particípio?
  3. Identifique a construção: verbo simples ou conjunto com auxiliar?
  4. Observe a relação com os termos: há objeto, predicativo ou apenas circunstância?
  5. Teste a voz: existe sujeito paciente e equivalência com passiva analítica?
  6. Se houver se, reconstrua a oração: passiva, indeterminação, reflexividade, reciprocidade ou outro emprego?
  7. Pergunte se há sujeito: especialmente com haver, fazer e verbos meteorológicos.
  8. Só então trate concordância, regência, tempo e modo na profundidade exigida pela questão e pelos assuntos próprios.

A pergunta central desta unidade é sempre a mesma: que comportamento verbal a construção revela? Os rótulos servem para descrever esse mecanismo; não substituem a análise do contexto.

Referências

Referências — Verbo como classe de palavras

Revalidação de programa, proveniência, nomenclatura, fontes linguísticas e questões anteriores em 22 de setembro de 2026. A data da consulta não altera o corte do edital.

Programa e proveniência

  • Centro Brasileiro de Pesquisa em Avaliação e Seleção e de Promoção de Eventos. Edital nº 1 — PCMA — Investigador, de 13 de julho de 2026. Item 20.2.2, Língua Portuguesa, item 5.1: emprego das classes de palavras. O texto oficial foi reconferido textual e visualmente.
  • Proveniência editorial. Reaproveitamento parcial do canônico src/content/biblioteca/lingua-portuguesa/verbo-como-classe-de-palavras/, auditado nos blobs 5ff3dd51b082d9ef3103e8506125ac97047bd058 (conteúdo), d9634f5e29ad0b8733e91bfb2ee60cf2188d28bf (revisão), 3031c7db63b2393658b47ffed2d60f974a397af2 (questões) e ed20f751913dff8ccfa9a2352bc216adf78d37d6 (referências). Os quatro blobs permanecem iguais na main. O canônico é consumido por vínculos explícitos dos dois cargos do TCE-MA, ambos com ordem 7; esta cópia é física/local da PC-MA.

Nomenclatura e funcionamento verbal

  • Ministério da Educação e Cultura. Nomenclatura Gramatical Brasileira — Portaria nº 36, de 28 de janeiro de 1959. A seção de verbo registra as três conjugações, a vinculação de pôr e derivados à segunda, as formas nominais, as classificações tradicionalmente cobradas, as vozes e a locução verbal. Documento reconferido em 22 set. 2026; a NGB é nomenclatura, não explicação exaustiva de cada uso.
  • Editora Melhoramentos. Michaelis On-line. Noções gramaticais — Verbos. Estrutura das formas verbais, conjugação, regularidade, defectividade, abundância, predicação, auxiliares, impessoalidade e tonicidade. Consulta reconferida em 22 set. 2026.
  • Priberam. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Reaver e haver. Apoio lexical à defectividade de reaver e aos diferentes empregos de haver. Verbetes reconferidos em 22 set. 2026.

Infinitivo, particípio e concordância mínima

  • Senado Federal. Manual de Comunicação. Infinitivo flexionado, De o/de ele/de este e Concordância verbal. Sujeito do infinitivo, separação da preposição e concordância em construções verbais; as orientações editoriais são usadas apenas na extensão necessária a este recorte. Páginas reconferidas em 22 set. 2026.
  • Senado Federal. Manual de Comunicação. Particípios duplos. Alternância de particípios, combinação com auxiliares e contraste de formas admitidas. Página reconferida em 22 set. 2026.

A revalidação não identificou divergência material que exigisse reescrever conteudo.md ou cheat-sheet.md: o pacote local continua coerente ao distinguir classe verbal de valor semântico, separar critérios de classificação, delimitar formas nominais e auxiliaridade, tratar transitividade e vozes apenas no necessário para reconhecer o verbo e remeter tempos/modos, sintaxe, regência e concordância às unidades próprias.

Provas anteriores usadas em adaptações

Os três itens locais identificados como previous_exam são adaptações didáticas, não transcrições integrais. Os IDs do canônico foram preservados, mas enunciados e alternativas locais foram reescritos; por isso as três questões estão na revisão 2, contra revisão 1 no doador.

Questão localProva originalGabarito definitivo
q384FGV — Professor de Língua Portuguesa, Tipo 1, questão 49A
q388FGV — Câmara dos Deputados, Analista Legislativo — Técnica Legislativa, Tipo 3, questão 13B
q399FGV — Polícia Civil do Piauí, Oficial Investigador, Tipo 2, questão 1C

Fontes primárias:

Em 22 set. 2026, os três cadernos e os três gabaritos foram conferidos textual e visualmente. Os originais confirmam, respectivamente, A, B e C; as adaptações locais preservam os mesmos resultados. Nenhuma questão, alternativa, gabarito ou revisão adicional foi necessária.

Fronteiras da cópia parcial

O canônico atual possui 119 questões — 71 autorais e 48 de provas anteriores/adaptações; o conjunto local possui 20 — 17 autorais locais + 3 adaptações herdadas. Os únicos IDs em comum são q384, q388 e q399, todos reescritos localmente, com revisão 2 no pacote da PC-MA e revisão 1 no doador.

A inspeção de PC-F02 trabalhou exclusivamente o pacote físico da PC-MA. O canônico e seus dois consumidores do TCE-MA permaneceram somente leitura. conteudo.md, cheat-sheet.md e questoes.json foram aceitos sem alteração; o conjunto local não exige resolucoes/ separadas.

0%