Princípios de contagem e probabilidade

Princípios de contagem, permutações, arranjos, combinações e fundamentos de probabilidade, condicionamento e independência.

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Princípios de contagem e probabilidade

1. A pergunta que vem antes da fórmula

Quase todo erro deste assunto nasce antes da conta. A questão descreve uma situação — filas, comissões, senhas, urnas, dados — e o primeiro trabalho é decidir o que conta como um resultado diferente.

Compare:

  • escolher 3 pessoas para uma comissão sem cargos;
  • escolher presidente, vice-presidente e secretário entre as mesmas pessoas.

Nos dois casos há 3 escolhidos, mas trocar duas pessoas de posição só cria novo resultado no segundo. É essa diferença que separa combinação de arranjo.

Use este roteiro antes de procurar uma fórmula:

  1. alternativas ou etapas sucessivas?
  2. a ordem altera o resultado?
  3. usam-se todos os objetos ou apenas parte deles?
  4. repetição é permitida? Há objetos indistinguíveis?
  5. existe restrição de posição, adjacência ou composição?
  6. em um círculo, rotações representam a mesma disposição?

A ideia central é simples: modele primeiro; conte depois. Probabilidade virá em seguida como uma medida aplicada aos resultados possíveis.

2. Somar ou multiplicar: a base da contagem

2.1. Alternativas: princípio aditivo

Se uma escolha pode ocorrer por caminhos que não se sobrepõem, somam-se as possibilidades.

Exemplo hipotético: há 5 rotas rodoviárias e 3 ferroviárias, e nenhuma rota pertence às duas categorias. Escolher uma rota significa usar uma alternativa ou a outra:

5+3=8.5+3=8.

Se houver sobreposição, a soma direta conta duas vezes o que está nas duas categorias. Para dois conjuntos:

AB=A+BAB.|A\cup B|=|A|+|B|-|A\cap B|.

2.2. Etapas: princípio multiplicativo

Se o resultado é construído em etapas sucessivas, multiplique o número de opções disponíveis em cada etapa.

Exemplo hipotético: com 4 camisas e 3 calças, cada escolha de camisa pode ser combinada com cada escolha de calça:

43=12.4\cdot3=12.

Se as opções diminuem porque não há repetição, a multiplicação acompanha essa mudança. Uma sequência de 3 letras distintas escolhidas entre 26 pode ser formada de

26252426\cdot25\cdot24

maneiras.

Esses dois princípios sustentam as fórmulas seguintes. Quando uma fórmula parecer obscura, volte a contar posição por posição.

3. Ordem, escolha e fatorial

Para n1n\ge1,

n!=n(n1)21,0!=1.n!=n(n-1)\cdots2\cdot1, \qquad 0!=1.

O fatorial aparece quando o número de opções cai sucessivamente de nn até 1.

3.1. Permutação: usar todos e ordenar

Com nn objetos distintos, usando todos e considerando a ordem:

Pn=n!.P_n=n!.

Se 6 pessoas distintas formam uma fila, há

6!=7206!=720

filas.

3.2. Arranjo: escolher parte e ordenar

Escolhendo pp objetos entre nn, com posições distintas:

An,p=n!(np)!.A_{n,p}=\frac{n!}{(n-p)!}.

Primeiro e segundo lugares entre 10 concorrentes:

A10,2=109=90.A_{10,2}=10\cdot9=90.

3.3. Combinação: escolher parte sem ordenar

Se a ordem dos pp escolhidos não muda o resultado:

(np)=Cn,p=n!p!(np)!.\binom np=C_{n,p}=\frac{n!}{p!(n-p)!}.

Uma comissão sem cargos de 3 pessoas entre 10 pode ser formada de

(103)=120\binom{10}{3}=120

maneiras.

A divisão por p!p! elimina as p!p! ordens que representam a mesma comissão. Por isso,

An,p=(np)p!.A_{n,p}=\binom np\,p!.

Teste de prova: se trocar duas pessoas escolhidas produz um resultado novo, a ordem importa; se nada muda, não importa.

4. Quando os objetos ou as posições não são todos distintos

4.1. Permutação com repetição

Se há nn posições e grupos de objetos indistinguíveis com quantidades a1,,ara_1,\ldots,a_r, as trocas entre cópias iguais não criam novas disposições:

n!a1!ar!.\frac{n!}{a_1!\cdots a_r!}.

Na palavra ARARA, há 5 letras, sendo 3 A e 2 R:

5!3!2!=10.\frac{5!}{3!2!}=10.

4.2. Combinação com repetição

Agora a repetição é permitida, mas a ordem não interessa. Escolher pp unidades entre nn tipos produz

(n+p1p).\binom{n+p-1}{p}.

Exemplo hipotético: escolher 4 bolas de sorvete entre 6 sabores, podendo repetir sabor:

(94)=126.\binom94=126.

4.3. Permutação circular

Em uma mesa redonda sem lugar marcado, girar todos os participantes ao mesmo tempo não cria uma disposição nova. Fixe uma pessoa como referência e ordene as demais:

Pncircular=(n1)!.P_n^{\text{circular}}=(n-1)!.

Reflexões continuam distintas, salvo se o enunciado disser que também devem ser identificadas.

5. Restrições: conte a estrutura antes dos detalhes

5.1. Posições fixas

Se um objeto já tem posição determinada, fixe-o e conte apenas o restante. Dez objetos distintos com dois deles presos a posições específicas deixam 8 objetos livres, portanto 8!8! disposições.

5.2. Objetos juntos: forme um bloco

Exemplo hipotético: 5 pessoas distintas, com Ana e Bruno obrigatoriamente juntos.

O par funciona primeiro como uma unidade. Assim há 4 unidades a ordenar e, dentro do bloco, 2 ordens possíveis:

4!2!=48.4!\cdot2!=48.

5.3. Objetos separados: lacunas ou complemento

Com 6 pessoas, para Ana e Bruno não ficarem adjacentes, duas estratégias dão o mesmo resultado.

Pelo complemento:

6!25!=480.6!-2\cdot5!=480.

Pelas lacunas, ordene primeiro as outras 4 pessoas. Surgem 5 lacunas; escolha uma para Ana e outra, diferente, para Bruno:

4!54=480.4!\cdot5\cdot4=480.

5.4. Primeiro algarismo

Zero pode ser usado em um número, mas não como primeiro algarismo. Para números de quatro algarismos distintos:

9987=4536.9\cdot9\cdot8\cdot7=4\,536.

O primeiro fator é 9 porque há 9 escolhas não nulas; depois restam 9 algarismos, incluindo o zero se ainda não foi usado.

6. Complemento, inclusão-exclusão e casa dos pombos

6.1. Contar o que não queremos

Quando a condição desejada é ampla, o complemento costuma ser menor e mais fácil:

N(desejado)=N(total)N(indesejado).N(\text{desejado})=N(\text{total})-N(\text{indesejado}).

Em 4 lançamentos de dado, o número de sequências com pelo menos um 6 é

6454=671.6^4-5^4=671.

O complemento de “pelo menos um” é nenhum, não “exatamente um”.

6.2. Inclusão-exclusão

Para dois conjuntos:

AB=A+BAB.|A\cup B|=|A|+|B|-|A\cap B|.

Para três:

ABC=A+B+CABACBC+ABC.|A\cup B\cup C| =|A|+|B|+|C| -|A\cap B|-|A\cap C|-|B\cap C| +|A\cap B\cap C|.

A lógica é corrigir contagens repetidas: somam-se os grupos, subtraem-se as sobreposições de pares e devolve-se a região tripla, que foi retirada em excesso.

Operações com conjuntos são desenvolvidas no assunto 042; aqui, a fórmula entra como ferramenta de contagem e de probabilidade.

6.3. Princípio da casa dos pombos

Ao distribuir NN objetos em rr caixas, alguma caixa recebe pelo menos

Nr\left\lceil\frac Nr\right\rceil

objetos.

Com 13 pessoas distribuídas pelos 12 meses de aniversário, algum mês contém ao menos 2 aniversariantes. Com 31 processos entre 6 equipes, alguma equipe recebe ao menos 6.

A conclusão é de existência mínima garantida: o princípio não identifica a caixa nem afirma que o limite é exato.

7. Da contagem à probabilidade

Contagem pergunta “quantos resultados existem?”. Probabilidade pergunta “qual é o peso do evento entre os resultados possíveis?”.

Um experimento aleatório tem resultados possíveis conhecidos, mas o resultado de uma realização não é determinado antecipadamente. O espaço amostral Ω\Omega reúne os resultados elementares possíveis; um evento é um subconjunto de Ω\Omega.

Em dois lançamentos de moeda, distinguindo a ordem:

Ω={CC,CK,KC,KK}.\Omega=\{CC,CK,KC,KK\}.

O evento “exatamente uma cara” é

{CK,KC}.\{CK,KC\}.

Se os resultados elementares têm a mesma probabilidade — são equiprováveis — então

P(A)=AΩ.P(A)=\frac{|A|}{|\Omega|}.

Essa razão não vale automaticamente para categorias finais que não sejam equiprováveis. Em dois dados honestos distinguíveis, as 36 duplas ordenadas são equiprováveis; as somas 2,3,\ldots,12 não são.

Propriedades básicas:

0P(A)1,P(Ω)=1,P()=0.0\le P(A)\le1, \qquad P(\Omega)=1, \qquad P(\varnothing)=0.

8. “Não”, “ou” e eventos incompatíveis

O complemento reúne tudo o que está fora de AA:

P(Ac)=1P(A).P(A^c)=1-P(A).

Para a união de dois eventos:

P(AB)=P(A)+P(B)P(AB).P(A\cup B)=P(A)+P(B)-P(A\cap B).

Eventos são mutuamente exclusivos quando não podem ocorrer juntos:

AB=.A\cap B=\varnothing.

Nesse caso,

P(AB)=P(A)+P(B).P(A\cup B)=P(A)+P(B).

Em linguagem de prova, “AA ou BB” normalmente é inclusivo: admite AA, BB ou ambos. Só se elimina a interseção quando o contexto indicar exclusividade.

9. Condicionar é mudar o universo de referência

A informação “sabendo que BB ocorreu” elimina resultados fora de BB. Se P(B)>0P(B)>0,

P(AB)=P(AB)P(B).P(A\mid B)=\frac{P(A\cap B)}{P(B)}.

O denominador deixa de ser o espaço original e passa a ser o evento condicionante BB.

Da definição vem a regra do produto:

P(AB)=P(AB)P(B).P(A\cap B)=P(A\mid B)P(B).

Também, se P(A)>0P(A)>0,

P(AB)=P(BA)P(A).P(A\cap B)=P(B\mid A)P(A).

A interseção é a mesma nas duas expressões, mas os universos condicionantes são diferentes. Portanto, em geral,

P(AB)P(BA).P(A\mid B)\ne P(B\mid A).

10. Independência, exclusão mútua e reposição

Eventos AA e BB são independentes quando saber que um ocorreu não altera a probabilidade do outro. Algebricamente,

P(AB)=P(A)P(B).P(A\cap B)=P(A)P(B).

Quando a condicional está definida, isso equivale a

P(AB)=P(A).P(A\mid B)=P(A).

10.1. Exclusão mútua não é independência

Se AA e BB são mutuamente exclusivos e ambos têm probabilidade positiva,

P(AB)=0P(A)P(B).P(A\cap B)=0 \neq P(A)P(B).

Logo, são dependentes. Exclusão mútua significa “não ocorrem juntos”; independência significa “a ocorrência de um não muda a chance do outro”.

10.2. Complementos de eventos independentes

Se AA e BB são independentes, complementar um ou ambos preserva a independência. Por exemplo,

P(ABc)=P(A)P(Bc).P(A\cap B^c)=P(A)P(B^c).

Isso segue de

P(ABc)=P(A)P(AB)=P(A)P(A)P(B)=P(A)(1P(B)).P(A\cap B^c)=P(A)-P(A\cap B) =P(A)-P(A)P(B) =P(A)(1-P(B)).

10.3. Com e sem reposição

Considere uma urna com 3 bolas vermelhas e 2 azuis.

Sem reposição, retirar uma vermelha altera a composição:

P(duas vermelhas)=3524=310.P(\text{duas vermelhas}) =\frac35\cdot\frac24 =\frac3{10}.

Com reposição, a composição é restaurada entre as retiradas:

P(duas vermelhas)=3535=925.P(\text{duas vermelhas}) =\frac35\cdot\frac35 =\frac9{25}.

Não conclua apenas pela palavra “reposição” que quaisquer eventos são independentes; verifique o experimento. Em urnas simples como esta, a reposição mantém as mesmas probabilidades entre etapas.

11. “Pelo menos um” em tentativas repetidas

Em nn tentativas independentes, cada uma com probabilidade pp de sucesso, “ao menos um sucesso” é o complemento de “nenhum sucesso”:

P(ao menos um sucesso)=1(1p)n.P(\text{ao menos um sucesso}) =1-(1-p)^n.

A fórmula exige independência e a mesma probabilidade de fracasso 1p1-p em cada tentativa. Sem essas condições, calcule o complemento etapa por etapa.

Exemplo: em 3 lançamentos independentes de moeda honesta,

P(ao menos uma cara)=1(12)3=78.P(\text{ao menos uma cara}) =1-\left(\frac12\right)^3 =\frac78.

Para exatamente duas caras, o raciocínio é outro: escolha quais 2 das 3 posições terão cara. Há (32)=3\binom32=3 sequências favoráveis entre 23=82^3=8 sequências equiprováveis, logo 3/83/8.

12. Probabilidade total e Bayes: dividir por origens

Suponha que um resultado possa vir de origens B1,,BkB_1,\ldots,B_k que não se sobrepõem e cobrem todo o espaço amostral. Esses eventos formam uma partição de Ω\Omega.

Se P(Bi)>0P(B_i)>0, a probabilidade de AA pode ser reconstruída somando os caminhos que levam a AA:

P(A)=i=1kP(ABi)P(Bi).P(A)=\sum_{i=1}^k P(A\mid B_i)P(B_i).

Esse é o teorema da probabilidade total.

Bayes responde à pergunta inversa: depois de observar AA, qual origem BjB_j se torna mais provável?

P(BjA)=P(ABj)P(Bj)iP(ABi)P(Bi),P(B_j\mid A) = \frac{P(A\mid B_j)P(B_j)} {\sum_i P(A\mid B_i)P(B_i)},

desde que P(A)>0P(A)>0.

A probabilidade inicial P(Bj)P(B_j) — a taxa-base, isto é, a frequência ou chance da origem antes da nova evidência — participa do cálculo. Por isso não se pode trocar automaticamente P(AB)P(A\mid B) por P(BA)P(B\mid A).

13. Modelos que reaparecem em prova

13.1. Moedas

Em nn lançamentos independentes de moeda honesta, há 2n2^n sequências equiprováveis. Para exatamente kk caras, escolha as kk posições:

(nk).\binom nk.

13.2. Dados

Dois dados honestos distinguíveis geram 36 duplas ordenadas equiprováveis. A soma 7 aparece em 6 delas:

P(soma 7)=636=16.P(\text{soma }7)=\frac6{36}=\frac16.

Quando o evento é mais fácil pelo contrário, use complemento. O produto de dois dados é par, por exemplo, salvo quando ambos são ímpares:

P(produto par)=1(36)2=34.P(\text{produto par}) =1-\left(\frac36\right)^2 =\frac34.

13.3. Senhas e códigos

Conte posição por posição. Verifique quais caracteres são permitidos, se podem repetir e se a primeira posição tem alguma restrição.

13.4. Urnas e cartas

Antes de calcular, identifique se a ordem das retiradas importa, se há reposição, se o denominador muda e se o enunciado trouxe uma informação condicionante.

14. Como decidir sob pressão de prova

Contagem

  1. Defina o que é um resultado diferente.
  2. Separe alternativas de etapas sucessivas.
  3. Pergunte se a ordem importa.
  4. Verifique repetição, objetos indistinguíveis e circularidade.
  5. Incorpore posições fixas e restrições de adjacência.
  6. Teste bloco, lacunas, complemento ou inclusão-exclusão antes de desenvolver contas longas.

Probabilidade

  1. Defina o espaço amostral e o evento.
  2. Verifique se os resultados elementares são equiprováveis.
  3. Traduza “não”, “ou”, “e” e “sabendo que”.
  4. Identifique dependência e reposição.
  5. Para “pelo menos um”, tente primeiro o complemento.
  6. Se houver informação nova, pergunte se o universo foi condicionado.
  7. Ao inverter uma condicional, considere Bayes e a taxa-base.
  8. No fim, uma probabilidade deve ficar entre 0 e 1.

As fórmulas são atalhos para esses mecanismos. Se duas fórmulas parecem possíveis, retorne à pergunta inicial: quais resultados são diferentes e como eles são gerados?

Referências
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