Classes invariáveis de palavras

Emprego contextual de advérbio, preposição, conjunção e interjeição em questões de concursos.

Ler sem distrações

Classes invariáveis de palavras

1. Modificar, ligar ou reagir?

Compare estes exemplos hipotéticos:

A equipe revisou cuidadosamente o relatório.
A equipe revisou o relatório de auditoria.
A equipe revisou o relatório, mas não o publicou.
Ufa! A equipe terminou o relatório.

Cuidadosamente informa como ocorreu a revisão: é advérbio. De liga auditoria a relatório, especificando-o: é preposição. Mas liga duas informações e estabelece contraste: é conjunção. Ufa! manifesta alívio, com autonomia: é interjeição.

Essas classes são tradicionalmente invariáveis: não concordam em masculino/feminino ou singular/plural com outras palavras. A equipe revisou cuidadosamente; as equipes também. Mas uma palavra pode mudar de classe conforme o emprego: muitas equipes não tem a organização de trabalharam muito. Classifique pelo contexto, não pela forma isolada. Os demais exemplos também são hipotéticos.

2. Advérbio: o que está sendo modificado?

Em a equipe trabalhou muito, muito intensifica o verbo trabalhou. Em a equipe está muito preparada, intensifica preparada, um adjetivo, palavra que caracteriza um ser ou atribui-lhe uma propriedade. Em trabalhou muito bem, intensifica outro advérbio, bem. O advérbio pode, portanto, modificar verbo, adjetivo ou outro advérbio.

Pode também alcançar uma oração inteira, estrutura organizada em torno de verbo ou locução verbal — verbos que atuam conjuntamente, como será divulgado. Em provavelmente o resultado será divulgado amanhã, provavelmente apresenta a avaliação de quem fala sobre a divulgação; amanhã situa o acontecimento no tempo.

2.1 Circunstância, intensidade e posicionamento

O sentido acrescentado orienta a classificação:

ValorComo reconhecerExemplos
LugarOnde?aqui, ali, longe
TempoQuando? Com que frequência?hoje, cedo, sempre
ModoDe que maneira?bem, mal, depressa
IntensidadeEm que grau ou quantidade?muito, pouco, bastante, tão
AfirmaçãoApresenta a informação como certasim, certamente
NegaçãoNega o conteúdo alcançadonão, jamais
DúvidaApresenta possibilidade ou probabilidade, sem certezatalvez, provavelmente

Quase é tradicionalmente incluído entre os advérbios de intensidade: quase todos chegaram indica aproximação, não totalidade. Nunca e jamais associam tempo e negação; observe o valor pedido, sem tratar essas classificações como sentidos exclusivos.

A terminação -mente não garante valor de modo: certamente indica afirmação e provavelmente, dúvida. A substituição por locução também exige contexto: agir naturalmente, no sentido de agir sem afetação, equivale a agir com naturalidade, não necessariamente a agir de acordo com a natureza.

2.2 Por que “meio cansadas” não varia?

Em meia hora, meia indica metade de uma unidade: é numeral. Em elas estão meio cansadas, meio significa “um pouco” e modifica o adjetivo cansadas, não elas: é advérbio e permanece invariável.

O mesmo diagnóstico explica outros contrastes:

Palavra relacionada a um nomePalavra modificando verbo ou adjetivo
muitas candidatas; poucos recursosestudaram muito; trabalharam pouco
bastantes motivosestavam bastante preparadas
vozes altas; respostas clarasfalaram alto; responderam claro

À esquerda, muitas, poucos e bastantes indicam quantidade imprecisa de substantivos, palavras que nomeiam seres, coisas, ações ou ideias: são pronomes indefinidos. Altas e claras são adjetivos. À direita, o emprego é adverbial: não há concordância com os participantes.

Invariabilidade não prova a classe: menos não varia nem em menos candidatas — pronome indefinido — nem em estudaram menos — advérbio. Descubra primeiro o que a palavra modifica.

A invariabilidade não impede expressar grau: mais cedo que antes, menos cedo que antes e tão cedo quanto antes expressam comparação de superioridade, inferioridade e igualdade; muito cedo e cedíssimo intensificam sem comparação, em superlativo absoluto, respectivamente analítico (mais de uma palavra) e sintético (uma palavra). Bem e mal admitem melhor e pior. Pertinho pode intensificar a proximidade ou acrescentar afetividade.

2.3 Locuções, perguntas e alcance

Locução é um conjunto de palavras que desempenha o papel de uma unidade. Em a equipe revisou o relatório com cuidado, com cuidado tem valor de advérbio: é locução adverbial. Outras: à tarde, às pressas, de repente, com certeza, em breve, por acaso.

Já em a reunião de hoje terminou cedo, de hoje caracteriza o nome reunião: tem valor adjetivo, não adverbial. Começar por preposição não torna o conjunto uma locução prepositiva: considere a expressão inteira e o elemento a que se liga.

Advérbios interrogativos perguntam por circunstâncias: onde (lugar), quando (tempo), como (modo), por que (causa). A pergunta pode ser direta — Quando será a sessão? — ou indireta — Não sei quando será a sessão. Nesta, continua desconhecido o momento: quando não vira conjunção por estar entre dois verbos.

O alcance, ou escopo, é o trecho afetado: só a equipe revisou o relatório exclui outros revisores; a equipe revisou só o relatório exclui outros documentos. A tradição também distingue palavras ou expressões denotativas, como as de inclusão (até a diretora participou), exclusão (), retificação (isto é) e realce (é que). Outras análises incluem certos usos de e até entre os advérbios; observe a nomenclatura solicitada.

3. Preposição: ligar um termo a outro

Em relatório de auditoria, a preposição faz auditoria depender de relatório, especificando-o. Em a equipe precisa de apoio, precisar, nesse sentido, exige de para introduzir seu complemento: essa exigência é regência. Já em a equipe trabalhou de manhã, a expressão acrescenta tempo.

Daí a distinção entre preposição gramatical, exigida por outro termo, e preposição de valor semântico, que explicita uma relação de sentido. São empregos, não novas classes. Em capaz de revisar, de é exigido por capaz; em mesa de madeira, introduz a matéria. Não force um significado único para todas as ocorrências de de.

3.1 Reconhecer a relação no contexto

Em saiu com colegas, com introduz companhia; em escreveu com lápis, instrumento. A relação nasce da construção completa:

ConstruçãoRelação
veio de Recife; foi para a salaorigem; direção
estudou para a prova; para a equipe, o prazo é curtofinalidade; ponto de vista
tremia de medo; negado por falta de documentoscausa
falou sobre licitações; recurso contra a decisãoassunto; oposição
elaborado por especialistas; trocou folga por dinheiroagente, quem realizou a ação; troca
reunião após o expediente; chegou até a portariatempo; limite espacial
livro sob a mesa; livro sobre a mesa; cadeira entre duas mesasposição inferior; superior; intermediária

Sob e sobre também entram em construções não espaciais: sob pressão, sob pena de exclusão, sobre esse assunto. Não transfira mecanicamente “embaixo/em cima” para todo contexto.

3.2 Essenciais e acidentais

As preposições essenciais são as palavras de emprego tipicamente prepositivo: a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, perante, por, sem, sob, sobre, trás.

As acidentais são palavras de outras classes usadas como preposição: segundo, conforme, consoante, como, durante, mediante, salvo, exceto. Compare:

O segundo candidato entrou. → numeral ordinal, indica posição.
Segundo o edital, a etapa é obrigatória. → preposição, equivale a de acordo com.
Atuou como fiscal. → preposição acidental, equivale a na qualidade de.

Mediante cadastro pode indicar meio ou condição; salvo o diretor e exceto o diretor excluem alguém do conjunto. O contexto, não a simples origem da palavra, determina o emprego.

3.3 Locuções e uniões com outras palavras

Locuções prepositivas ligam termos como uma preposição: por causa de, a fim de, diante de, em vez de, acerca de, em relação a, de acordo com. Em apesar da chuva, houve atendimento, apesar de introduz um obstáculo que não impediu o fato: relação de concessão.

Observe a extensão analisada: diante de é locução prepositiva; diante da porta, em esperou diante da porta, é a expressão completa que indica o lugar da espera e tem valor adverbial.

A união da preposição com outra palavra pode ser combinação, sem perda de sons (a + o = ao), ou contração, com alteração ou redução (de + o = do; em + o = no; por + o = pelo; de + aquele = daquele). Em a + a = à, a fusão chama-se crase, indicada pelo acento grave. Em dos relatórios, o plural está no artigo os, não em de.

Regência e condições de uso da crase são aprofundadas nos assuntos 013 e 014. Reconheça a preposição mesmo quando não aparece separada.

4. Conjunção: como duas estruturas se relacionam?

Em revisou o relatório e a planilha, e liga dois termos com o mesmo papel: indicar o que foi revisado. Em revisou o relatório e publicou a planilha, liga duas orações. A ligação no mesmo nível chama-se coordenação.

Em informou que a planilha estava pronta, a segunda oração fornece o conteúdo informado: ela funciona dentro da estrutura maior. Essa dependência chama-se subordinação. Conjunções podem realizar esses dois tipos de ligação; nem toda palavra que liga orações, porém, é conjunção.

4.1 Conjunções coordenativas: relações entre unidades do mesmo nível

A soma em revisou e publicou difere do contraste em revisou, mas não publicou. Os grupos tradicionais distinguem essas relações:

GrupoRelaçãoFormas frequentes
AditivasSomam ou associame, nem, não só… mas também
AdversativasContrapõem, restringem ou quebram uma expectativamas, porém, contudo
AlternativasIndicam escolha ou alternânciaou, ora… ora, quer… quer
ConclusivasApresentam o que se deduz do trecho anteriorlogo, portanto, pois em certo emprego
ExplicativasJustificam uma afirmação, ordem ou conselhoporque, que, pois em certo emprego

O valor típico não esgota o contexto: prometeu rapidez e demorou meses expressa contraste; revisou e publicou, sequência. Ou pode excluir uma opção (será escolhido um relator: Ana ou Paulo) ou admitir ambas (experiência em gestão ou contabilidade). Em não só revisou, mas também publicou, o par expressa adição, não oposição.

Compare os empregos de pois: apresente o comprovante, pois ele é obrigatório justifica a ordem; o comprovante era obrigatório; deveria, pois, ser apresentado extrai uma conclusão. O pois conclusivo aparece deslocado, após o verbo. Posição e sentido devem ser lidos juntos, sem presumir que toda conjunção exija vírgula.

4.2 Conjunções subordinativas: conteúdo ou circunstância?

Em informou que compareceria, a segunda oração fornece o conteúdo: informou isso. Em não sei se haverá recurso, há o mesmo funcionamento: não sei isso. Que e se são conjunções integrantes: introduzem orações com funções próprias de substantivo. Substitui-se a oração inteira, não só a conjunção.

Já em se houver recurso, o prazo será reaberto, há uma condição, não um conteúdo desconhecido: se é condicional. As conjunções subordinativas adverbiais introduzem circunstâncias. Em embora estivesse cansada, concluiu o relatório, há um obstáculo superado, não a causa da conclusão.

RelaçãoO que a oração acrescentaFormas frequentes
CausaMotivo do fatoporque, como, já que
CondiçãoHipótese de que o fato dependese, caso
ConcessãoObstáculo que não impede o fatoembora, ainda que
ComparaçãoSegundo termo de um confrontocomo, mais… do que
ConformidadeReferência com a qual algo está de acordoconforme, segundo
ConsequênciaResultado, frequentemente associado a intensidadetão… que, tanto… que
FinalidadeObjetivo pretendidopara que, a fim de que
ProporçãoVariação que acompanha outraà medida que, quanto mais… mais
TempoMomento ou relação temporalquando, assim que

Causa não é mera justificativa de uma fala: foi eliminado porque faltou apresenta a causa da eliminação; compareça, porque sua presença é necessária justifica o pedido. A mesma palavra pode ser causal ou explicativa conforme a relação construída.

4.3 Distinguir construções parecidas

Em o relatório que chegou será analisado, que retoma relatório e o representa dentro da oração: o relatório chegou. É pronome relativo, não conjunção integrante. O termo retomado chama-se antecedente. Na integrante informou que compareceria, que não representa um antecedente: apenas introduz o conteúdo informado.

Em conforme o regulamento, conforme introduz um grupo nominal: é preposição acidental. Em conforme prevê o regulamento, introduz oração: conjunção conformativa. Como também muda: Como foi a revisão? pergunta pelo modo; Como faltavam dados, a revisão parou apresenta causa.

Não transforme isso na regra “se há verbo depois, há conjunção”:

Trabalhou a fim de concluir o relatório.
Trabalhou a fim de que o relatório fosse concluído.

Ambas contêm oração de finalidade. Na primeira, a fim de é locução prepositiva; concluir está no infinitivo, forma que apresenta o processo sem, por si só, situá-lo no tempo. A oração é reduzida de infinitivo. Na segunda, a fim de que é locução conjuntiva, e a oração é desenvolvida, com fosse concluído. Analise a ligação e a forma verbal juntas.

Por fim, quando a sessão começou, fecharam as portas situa um fato no tempo: quando é conjunção temporal. Em não sei quando a sessão começou, continua perguntando indiretamente pelo momento: advérbio interrogativo.

4.4 Conector não é sinônimo de conjunção

Conector é uma designação ampla para elementos que articulam partes do texto. Em o prazo terminou; por isso, o pedido foi rejeitado, por isso estabelece conclusão ou consequência, mas esse sentido não o transforma em conjunção simples. Assim e desse modo também podem ligar ideias com valor conclusivo.

Separe classe (tipo de palavra), função sintática (papel na estrutura) e valor semântico (sentido). Algumas gramáticas tratam porém e portanto como advérbios conectivos; a tradição escolar os inclui entre as conjunções. Siga a perspectiva solicitada, sem confundir divergência de nome com mudança de sentido. Os assuntos 009 e 010 aprofundam essas estruturas.

5. Interjeição: uma reação pode constituir um enunciado

Ufa! manifesta alívio; ai!, dor; olá!, saudação; psiu!, chamamento ou pedido de silêncio; epa!, advertência ou surpresa. São interjeições, expressões que podem funcionar autonomamente, sem modificar um verbo nem ligar termos. A interpretação depende da situação e da entonação: ah! pode exprimir compreensão, satisfação ou decepção.

Expressões com mais de uma palavra e essa mesma função são locuções interjetivas: meu Deus!, ai de mim!, ora bolas!, valha-me Deus!.

O sinal de exclamação não determina a classe: ela chegou cedo! continua contendo o advérbio cedo. Em ora lê, ora escreve, ora… ora articula alternância; em ora! Não exagere, ora! manifesta uma reação. É o trabalho da palavra no enunciado que decide a análise.

Referências

Referências — Classes invariáveis de palavras

Recorte e atualização

Fontes eletrônicas consultadas em 5 de setembro de 2026. O recorte é o item 5.1 de Língua Portuguesa, em conhecimentos gerais, comum aos dois cargos desta campanha. A retificação de 29 de julho de 2026 não alterou esse item. A nomenclatura gramatical tradicional é distinguida, no conteúdo, das análises que classificam certos conectores ou palavras denotativas de outra maneira.

  • CENTRO BRASILEIRO DE PESQUISA EM AVALIAÇÃO E SELEÇÃO E DE PROMOÇÃO DE EVENTOS. Edital nº 1 — TCE/MA, de 6 de julho de 2026, versão atualizada conforme o Edital nº 2, de 29 de julho de 2026. Subitem 14.2.3, Língua Portuguesa, item 5.1; página 43. Documento oficial consolidado.
  • CENTRO BRASILEIRO DE PESQUISA EM AVALIAÇÃO E SELEÇÃO E DE PROMOÇÃO DE EVENTOS. Edital nº 2 — TCE/MA, de 29 de julho de 2026. Delimita as alterações e mantém os demais itens e subitens. Retificação oficial.

Classificação e emprego

  • BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Nomenclatura Gramatical Brasileira. Portaria nº 36, de 28 de janeiro de 1959. Segunda parte, itens VII a X: advérbio, grau, palavras denotativas, preposição, conjunção e interjeição; terceira parte: relações sintáticas. Transcrição hospedada pela Universidade Federal do Paraná.
  • FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS. Material didático de Língua Portuguesa, glossário da página “Ética”, verbetes sobre classes gramaticais, advérbio, preposição, conjunção e interjeição. Apoio às definições introdutórias; a autonomia da coordenação é sintática, não ausência de relação de sentido. Material institucional.
  • FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS. Professor de Língua Portuguesa — Tipo 1, Branca, concurso da Secretaria de Estado da Educação, do Esporte e do Lazer do Rio Grande do Norte. Questões 48, 52, 54, 57 e 59: valores e exigência de preposições, alternância/adição e classificação contextual de menos e e. Caderno oficial e gabarito definitivo, página 12.
  • FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS. Médico Reumatologista — Tipo 1, Branca, Prefeitura de Caraguatatuba, prova de 28 de janeiro de 2024. Questões 7 e 8: finalidade e preposição exigida por regência. Caderno oficial, página 3 e gabarito definitivo, página 65.

Bibliografia de aprofundamento

  • BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Classes de palavras, locuções e relações entre termos e orações.
  • CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo. Rio de Janeiro: Lexikon. Advérbio, preposição, conjunção, interjeição e empregos contextuais.
0%