Operações com conjuntos

Pertinência, inclusão, união, interseção, diferença, complemento, leis algébricas, cardinalidade, inclusão-exclusão e diagramas de Venn.

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Operações com conjuntos

1. A pergunta central: em que região cada elemento está?

Problemas de conjuntos parecem variar muito, mas quase todos exigem a mesma decisão: em qual região cada elemento deve ser colocado ou contado?

Considere um cenário hipotético. Um setor acompanha 120 processos. O conjunto AA reúne os processos com pendência documental; o conjunto BB, os processos com pendência financeira. Um processo pode estar:

  • somente em AA;
  • somente em BB;
  • simultaneamente em AA e BB;
  • fora dos dois conjuntos.

Toda a matéria deste capítulo nasce dessa divisão. As operações dizem qual região selecionar; a cardinalidade diz quantos elementos há nela; a inclusão-exclusão impede que um mesmo elemento seja contado mais de uma vez.

Antes das fórmulas, portanto, faça duas perguntas:

  1. qual é o universo do problema?
  2. que condição define a região pedida?

O edital cobra operações com conjuntos. Para esse recorte, são necessários universo, elemento, pertinência, inclusão, igualdade, conjunto vazio, operações, cardinalidade, inclusão-exclusão e leitura de regiões. Produto cartesiano, famílias indexadas, partições, intervalos e desenvolvimento abstrato do conjunto das partes não são necessários aqui.

2. A linguagem mínima antes de operar

Um conjunto é uma coleção bem determinada de objetos, chamados elementos. O conjunto universo UU reúne todos os objetos admitidos no problema.

No cenário inicial, se os 120 processos acompanhados são os únicos relevantes, esses 120 formam o universo. Os conjuntos AA e BB são subconjuntos desse universo.

2.1. Pertinência: elemento contra conjunto

Se o objeto xx é elemento de AA, escreve-se:

xA.x\in A.

Se não é:

xA.x\notin A.

A relação de pertinência compara um elemento com um conjunto.

Exemplo:

A={1,2,3}.A=\{1,2,3\}.

Então 2A2\in A, mas 4A4\notin A.

2.2. Inclusão: conjunto contra conjunto

A expressão

ABA\subseteq B

significa que todo elemento de AA também pertence a BB.

Se, além disso, ABA\ne B, então AA é subconjunto próprio de BB:

AB.A\subsetneq B.

Aqui a comparação é entre dois conjuntos.

Essa diferença evita uma pegadinha frequente:

xA{x}A.x\in A \quad\Longleftrightarrow\quad \{x\}\subseteq A.

Mas

{x}A\{x\}\in A

é outra afirmação: diz que o próprio conjunto unitário {x}\{x\} foi colocado como elemento de AA.

Se

A={1,{2},3},A=\{1,\{2\},3\},

então {2}A\{2\}\in A, mas 2A2\notin A.

2.3. Igualdade, repetição e cardinalidade

Dois conjuntos são iguais quando possuem exatamente os mesmos elementos:

A=BAB e BA.A=B \quad\Longleftrightarrow\quad A\subseteq B\text{ e }B\subseteq A.

A ordem de escrita e a repetição não alteram o conjunto:

{1,2,2,3}={3,2,1}.\{1,2,2,3\}=\{3,2,1\}.

A cardinalidade de AA, indicada por A|A|, é o número de elementos distintos de AA. Assim,

{1,2,2,3}=3.|\{1,2,2,3\}|=3.

Ter a mesma cardinalidade, porém, não torna dois conjuntos iguais. Por exemplo, {1,2}\{1,2\} e {7,8}\{7,8\} têm dois elementos, mas não têm os mesmos elementos.

2.4. Conjunto vazio

O conjunto vazio, indicado por \varnothing, não possui elementos:

=0.|\varnothing|=0.

Ele é subconjunto de todo conjunto:

A.\varnothing\subseteq A.

Isso não significa que \varnothing seja elemento de todo conjunto.

Também não confunda:

{}.\varnothing\ne\{\varnothing\}.

O primeiro tem zero elementos. O segundo tem um elemento: o próprio conjunto vazio.

3. União e interseção: ampliar ou restringir a região

As duas operações centrais podem ser entendidas pelo efeito sobre a região selecionada.

3.1. União: basta pertencer a pelo menos um

A união reúne os elementos que estão em AA, em BB ou em ambos:

AB={xxA ou xB}.A\cup B=\{x\mid x\in A\text{ ou }x\in B\}.

O “ou” é inclusivo.

Se

A={1,2,3},B={3,4},A=\{1,2,3\},\qquad B=\{3,4\},

então

AB={1,2,3,4}.A\cup B=\{1,2,3,4\}.

O elemento 33 aparece nos dois conjuntos, mas é contado uma única vez na união.

No cenário dos processos, ABA\cup B representa os processos com pelo menos uma das duas pendências.

3.2. Interseção: as condições devem valer ao mesmo tempo

A interseção reúne os elementos que pertencem simultaneamente aos dois conjuntos:

AB={xxA e xB}.A\cap B=\{x\mid x\in A\text{ e }x\in B\}.

No exemplo numérico:

AB={3}.A\cap B=\{3\}.

No cenário dos processos, ABA\cap B representa quem tem as duas pendências.

Palavras como ambos, simultaneamente, nos dois e ao mesmo tempo normalmente apontam para interseção.

Se

AB=,A\cap B=\varnothing,

os conjuntos são disjuntos: não possuem elementos em comum.

4. Diferença, complemento e exatamente um

4.1. Diferença: fica o que pertence ao primeiro e não ao segundo

A diferença

ABA\setminus B

seleciona os elementos que estão em AA e não estão em BB:

AB={xxA e xB}.A\setminus B=\{x\mid x\in A\text{ e }x\notin B\}.

Para

A={1,2,3},B={3,4},A=\{1,2,3\},\qquad B=\{3,4\},

temos

AB={1,2},BA={4}.A\setminus B=\{1,2\}, \qquad B\setminus A=\{4\}.

A ordem importa. Em geral,

ABBA.A\setminus B\ne B\setminus A.

No cenário inicial, ABA\setminus B são os processos com pendência documental, mas sem pendência financeira.

4.2. Complemento: tudo depende do universo

O complemento de AA é o que está no universo e não está em AA:

Ac=UA.A^c=U\setminus A.

Se

U={1,2,3,4,5},A={1,3,5},U=\{1,2,3,4,5\},\qquad A=\{1,3,5\},

então

Ac={2,4}.A^c=\{2,4\}.

Por isso, “fora de AA” só faz sentido depois de saber qual é o universo. Trocar UU pode trocar AcA^c.

Também:

AB=ABc.A\setminus B=A\cap B^c.

Ou seja, “estar em AA e não em BB” é exatamente “estar em AA e no complemento de BB”.

4.3. Diferença simétrica: exatamente um dos conjuntos

A diferença simétrica seleciona quem pertence a um dos conjuntos, mas não aos dois:

AB=(AB)(BA).A\triangle B =(A\setminus B)\cup(B\setminus A).

Também pode ser escrita como:

AB=(AB)(AB).A\triangle B =(A\cup B)\setminus(A\cap B).

No cenário dos processos, é o conjunto dos processos com exatamente uma das duas pendências.

5. Traduzir a frase vem antes de calcular

Muitos erros não são de conta; são de tradução da linguagem para a região correta.

Linguagem do enunciadoRegião
pelo menos um / AA ou BBABA\cup B
ambos / simultaneamenteABA\cap B
AA, mas não BBABA\setminus B
exatamente umABA\triangle B
nenhum dos dois(AB)c(A\cup B)^c
não ambos(AB)c(A\cap B)^c
somente AA entre trêsA(BC)A\setminus(B\cup C)

Duas frases merecem contraste especial:

  • nenhum dos dois: o elemento está fora de AA e fora de BB;
  • não ambos: basta que pelo menos uma das duas pertinências falhe.

Logo,

(AB)c(AB)c(A\cup B)^c \ne (A\cap B)^c

em geral.

6. Leis algébricas: por que elas funcionam

As leis são mais fáceis de lembrar quando se observa a região que cada expressão seleciona.

6.1. Repetir a mesma condição não muda a região

AA=A,AA=A.A\cup A=A, \qquad A\cap A=A.

São as leis de idempotência.

6.2. Trocar a ordem não muda união nem interseção

AB=BA,A\cup B=B\cup A, AB=BA.A\cap B=B\cap A.

São as leis de comutatividade.

6.3. Reagrupar três conjuntos também não muda o resultado

(AB)C=A(BC),(A\cup B)\cup C=A\cup(B\cup C), (AB)C=A(BC).(A\cap B)\cap C=A\cap(B\cap C).

São as leis de associatividade.

6.4. Vazio e universo funcionam como extremos

A=A,AU=A,A\cup\varnothing=A, \qquad A\cap U=A, AU=U,A=.A\cup U=U, \qquad A\cap\varnothing=\varnothing.

6.5. Absorção

A expressão ABA\cap B já está dentro de AA. Por isso, uni-la novamente a AA não acrescenta nada:

A(AB)=A.A\cup(A\cap B)=A.

Pelo raciocínio dual:

A(AB)=A.A\cap(A\cup B)=A.

6.6. Distributividade

Assim como em expressões algébricas, uma operação pode ser distribuída sobre a outra:

A(BC)=(AB)(AC),A\cap(B\cup C) =(A\cap B)\cup(A\cap C), A(BC)=(AB)(AC).A\cup(B\cap C) =(A\cup B)\cap(A\cup C).

7. Complementos e leis de De Morgan

O complemento inverte a região selecionada. Se uma condição era “pertencer à união”, o complemento exige ficar fora de toda essa união:

(AB)c=AcBc.(A\cup B)^c=A^c\cap B^c.

Em palavras: não estar em AA nem em BB significa estar fora de AA e fora de BB.

Já:

(AB)c=AcBc.(A\cap B)^c=A^c\cup B^c.

Em palavras: não estar simultaneamente em AA e BB significa estar fora de pelo menos um deles.

Esse é o mecanismo das leis de De Morgan: ao complementar, união e interseção trocam de lugar.

Também valem:

AAc=U,AAc=,(Ac)c=A.A\cup A^c=U, \qquad A\cap A^c=\varnothing, \qquad (A^c)^c=A.

8. Cardinalidade: contar regiões sem dupla contagem

Quando o problema pergunta “quantos?”, o foco passa da seleção da região para sua cardinalidade.

8.1. Dois conjuntos

Suponha, no cenário inicial, que:

A=70,B=50,AB=20.|A|=70, \qquad |B|=50, \qquad |A\cap B|=20.

Se somarmos 70+5070+50, os 20 processos da interseção entram duas vezes. Para contar cada processo uma única vez, subtraímos uma dessas contagens:

AB=A+BAB.|A\cup B| =|A|+|B|-|A\cap B|.

No exemplo:

AB=70+5020=100.|A\cup B|=70+50-20=100.

Como o universo tem 120 processos, ficam fora dos dois conjuntos:

(AB)c=120100=20.|(A\cup B)^c|=120-100=20.

As regiões exclusivas também saem diretamente da interseção:

AB=AAB,|A\setminus B|=|A|-|A\cap B|, BA=BAB.|B\setminus A|=|B|-|A\cap B|.

No exemplo:

AB=50,BA=30.|A\setminus B|=50, \qquad |B\setminus A|=30.

Exatamente um dos dois conjuntos corresponde à soma dessas duas regiões:

AB=A+B2AB.|A\triangle B| =|A|+|B|-2|A\cap B|.

8.2. Um teste de possibilidade

Se A,BUA,B\subseteq U e U=N|U|=N, a interseção não pode ser negativa nem maior que o menor conjunto. Além disso, se A+B|A|+|B| ultrapassa NN, alguma sobreposição é obrigatória.

Por isso:

max(0,A+BN)ABmin(A,B).\max(0,|A|+|B|-N) \le |A\cap B| \le \min(|A|,|B|).

Esse intervalo é útil para detectar dados impossíveis antes de fazer contas longas.

9. Três conjuntos: comece pelo centro

Com três conjuntos, cada elemento pode ocupar mais regiões. O ponto crítico é que uma interseção de pares, como ABA\cap B, inclui quem também pertence a CC.

A fórmula de inclusão-exclusão é:

ABC=A+B+CABACBC+ABC.|A\cup B\cup C| =|A|+|B|+|C| -|A\cap B|-|A\cap C|-|B\cap C| +|A\cap B\cap C|.

O sinal final é positivo porque, após subtrair as três interseções de pares, a região tripla foi retirada vezes demais e precisa ser recolocada uma vez.

9.1. Como preencher um diagrama de Venn

Quando os dados são fornecidos por interseções, a ordem mais segura é do centro para fora:

  1. coloque a interseção tripla;
  2. obtenha as regiões de exatamente dois conjuntos;
  3. calcule as regiões exclusivas de cada conjunto;
  4. só então calcule a região externa à união.

Suponha:

AB=50,AC=40,BC=30,ABC=20.|A\cap B|=50, \quad |A\cap C|=40, \quad |B\cap C|=30, \quad |A\cap B\cap C|=20.

A região “AA e BB, mas não CC” vale:

5020=30.50-20=30.

Analogamente:

AC somente=4020=20,|A\cap C\text{ somente}|=40-20=20, BC somente=3020=10.|B\cap C\text{ somente}|=30-20=10.

Esse passo evita usar como região exclusiva um número que ainda contém a interseção tripla.

9.2. Pelo menos dois entre três

Somando

AB+AC+BC,|A\cap B|+|A\cap C|+|B\cap C|,

cada elemento da interseção tripla aparece três vezes. Para que apareça uma única vez, retiramos duas contagens:

AB+AC+BC2ABC.|A\cap B|+|A\cap C|+|B\cap C| -2|A\cap B\cap C|.

10. Método de resolução para prova

Use este fluxo sempre que aparecer um problema de conjuntos:

  1. fixe o universo — principalmente se houver complemento, “nenhum” ou total de pessoas/objetos;
  2. identifique o tipo de relação — elemento com conjunto (\in) ou conjunto com conjunto (\subseteq);
  3. traduza a frase em região — “ou”, “e”, “somente”, “exatamente”, “pelo menos”, “nenhum”;
  4. desenhe ou imagine as regiões antes dos números;
  5. em três conjuntos, comece pela interseção tripla;
  6. transforme interseções de pares em regiões exclusivas antes de calcular “somente”;
  7. aplique inclusão-exclusão para eliminar dupla contagem;
  8. confira se nenhuma região ficou negativa e se a soma respeita o universo.

11. O que deve ficar automático

Ao final deste assunto, estas distinções precisam sair sem hesitação:

  • xAx\in A compara elemento e conjunto; BAB\subseteq A compara conjuntos;
  • A\varnothing\subseteq A para todo AA, mas isso não implica A\varnothing\in A;
  • \varnothing e {}\{\varnothing\} são conjuntos diferentes;
  • repetir um elemento não aumenta a cardinalidade;
  • união usa “ou” inclusivo e contém a interseção;
  • diferença depende da ordem;
  • complemento depende do universo;
  • “nenhum” e “não ambos” representam regiões diferentes;
  • em três conjuntos, ABA\cap B inclui quem também está em CC;
  • inclusão-exclusão existe para corrigir contagens repetidas.
Referências
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