Segurança da informação: confidencialidade, integridade e disponibilidade
Imagine um relatório policial digital. Três falhas diferentes podem acontecer:
- uma pessoa não autorizada lê o relatório;
- alguém altera um dado do relatório sem autorização;
- o sistema fica indisponível justamente quando a equipe autorizada precisa consultar o arquivo.
As três situações são problemas de segurança, mas não são o mesmo problema. Elas correspondem, respectivamente, a confidencialidade, integridade e disponibilidade.
Esse é o mapa central do assunto:
quem pode conhecer? → confidencialidade | o conteúdo permanece confiável contra alteração indevida? → integridade | quem está autorizado consegue usar quando precisa? → disponibilidade
O NIST define segurança da informação como a proteção da informação e dos sistemas contra acesso, uso, divulgação, interrupção, modificação ou destruição não autorizados, de modo a preservar essas propriedades. No Brasil, a Política Nacional de Segurança da Informação também trabalha com disponibilidade, integridade, confidencialidade e autenticidade.
1. Segurança da informação não é sinônimo de “guardar segredo”
A primeira armadilha é reduzir segurança a sigilo.
Se ninguém de fora consegue ler um banco de dados, mas uma falha altera registros, há problema de integridade. Se os dados continuam corretos e secretos, mas o serviço fica inacessível para quem precisa usá-lo, há problema de disponibilidade.
Por isso, pense na informação durante todo o seu ciclo de uso: ela pode estar armazenada, sendo processada, transmitida, impressa ou conhecida por pessoas. Segurança da informação é mais ampla que segurança de um computador isolado. Pessoas, processos, instalações, equipamentos e sistemas podem participar da proteção.
2. Confidencialidade: quem pode conhecer a informação?
Confidencialidade é a preservação das restrições autorizadas de acesso e divulgação. Em linguagem de prova:
a informação só deve ser conhecida por quem está autorizado.
Violações típicas:
- consulta indevida a um cadastro restrito;
- envio de documento sigiloso ao destinatário errado;
- exposição pública de uma pasta que deveria ser privada;
- cópia não autorizada de dados por alguém que possuía acesso técnico ao ambiente, mas não autorização para aquele conteúdo.
Perceba a diferença entre ter capacidade técnica de acessar e estar autorizado a acessar.
2.1 Autenticação não é autorização
Dois conceitos aparecem juntos, mas respondem a perguntas diferentes:
- autenticação: verifica a identidade alegada;
- autorização: determina o que aquela identidade pode fazer.
Uma pessoa pode estar corretamente autenticada e, ainda assim, não ter autorização para abrir determinado arquivo. Essa distinção ajuda a entender por que login válido não significa acesso irrestrito.
2.2 Menor privilégio
O princípio do menor privilégio recomenda conceder apenas os acessos necessários à função desempenhada. Ele reduz a exposição caso uma conta seja usada indevidamente e evita que uma pessoa veja dados que não precisa conhecer.
Alguns controles podem apoiar a confidencialidade:
- controle de acesso;
- autenticação;
- autorizações por papel ou função;
- menor privilégio;
- cifragem.
A cifragem será estudada em profundidade na unidade de criptografia. Aqui, basta a ponte: tornar o conteúdo ininteligível para quem não possui o segredo adequado é uma forma de proteger confidencialidade.
3. Integridade: a informação foi alterada de forma indevida?
Integridade protege contra modificação ou destruição não autorizada ou acidental. A pergunta operacional é:
o conteúdo que chegou até mim continua como deveria estar?
Violações típicas:
- valor alterado em uma base sem autorização;
- arquivo corrompido durante armazenamento ou transmissão;
- exclusão indevida de registros;
- substituição de um documento legítimo por versão adulterada.
3.1 Integridade não significa que o dado original era verdadeiro
Esta distinção é decisiva.
Situação hipotética: alguém digita por engano a data errada em um formulário. Depois disso, o registro não sofre nenhuma alteração. O dado pode continuar incorreto do ponto de vista factual, embora sua integridade — no sentido de não ter sido modificado indevidamente depois de registrado — não tenha sido necessariamente violada.
Logo:
integridade protege contra alteração indevida; não transforma automaticamente informação errada em informação verdadeira.
No item 120 da PCDF (2024), o Cebraspe empregou “veracidade da informação durante todo o ciclo de vida” ao justificar integridade. Para resolver a questão da banca, reconheça esse uso; ao analisar um caso concreto, distinga preservação contra alteração indevida de acerto factual do dado desde a origem. O item oficial não demonstra que um erro de digitação seja corrigido por um controle de integridade.
3.2 Controles que ajudam a preservar ou verificar integridade
Exemplos:
- permissões que limitam quem pode editar;
- trilhas de auditoria e registros de alteração;
- versionamento;
- mecanismos de validação;
- hash criptográfico e assinaturas digitais, quando empregados de modo apropriado.
Os mecanismos criptográficos ficam na U030. Para U028, retenha apenas a função: alguns mecanismos ajudam a detectar alterações; outros também podem ajudar a vinculá-las a uma origem confiável.
4. Disponibilidade: o recurso está acessível quando precisa estar?
Disponibilidade significa acesso oportuno e confiável à informação ou ao serviço por entidades autorizadas.
A frase importante é “quando necessário”, e não “obrigatoriamente 24 horas por dia”.
Um sistema pode ter uma janela de operação prevista e ainda atender ao requisito de disponibilidade se estiver acessível nos períodos acordados. A prova pode explorar exatamente essa diferença.
Violações típicas:
- pane de hardware sem alternativa operacional;
- falha de energia sem continuidade suficiente;
- serviço sobrecarregado até ficar inutilizável;
- ataque de DoS ou DDoS;
- exclusão ou corrupção que impeça o uso de dados essenciais.
Controles que apoiam disponibilidade podem incluir:
- redundância de componentes, isto é, componentes alternativos capazes de assumir a função;
- monitoramento e resposta a falhas;
- capacidade adequada;
- continuidade e recuperação;
- backup recuperável;
- proteção contra sobrecarga e ataques de negação de serviço.
A unidade de malware tratará das pragas e ataques específicos; a unidade própria de cópias/recuperação aprofundará backup quando esse mecanismo aparecer no programa. Aqui, o ponto é apenas a relação entre falha de acesso legítimo e disponibilidade.
5. Uma ocorrência pode atingir mais de uma propriedade
Classificar a propriedade principal ajuda em prova, mas incidentes reais podem produzir vários efeitos.
| Situação | Efeito mais direto | Outros efeitos possíveis |
|---|---|---|
| documento restrito é publicado na Internet | confidencialidade | integridade, se também houver alteração |
| invasor modifica cadastro | integridade | confidencialidade, se precisou ler dados para agir |
| servidor fica fora do ar | disponibilidade | integridade, se houver perda/corrupção de dados |
| ransomware cifra arquivos sem autorização | disponibilidade e integridade | confidencialidade, se também houver exfiltração |
Não memorize “um ataque = um princípio”. Pergunte o que aconteceu com a informação.
6. Controle não é propriedade
Outra confusão comum é misturar objetivo com mecanismo.
- confidencialidade, integridade e disponibilidade são propriedades que se deseja preservar;
- controle de acesso, redundância, cifragem, auditoria e backup são exemplos de mecanismos ou práticas que podem ajudar a preservá-las.
Um mesmo controle pode contribuir para mais de uma propriedade, e nenhuma propriedade depende de um único mecanismo obrigatório.
Exemplo: uma solução de backup pode ajudar a recuperar informação e, assim, sustentar disponibilidade; se houver versões confiáveis, também pode ajudar na recuperação de dados alterados. Isso não faz do backup uma “definição” de disponibilidade ou integridade.
7. Autenticidade é relacionada, mas não substitui a tríade
No programa desta unidade, o núcleo é a tríade confidencialidade–integridade–disponibilidade. Em referências governamentais brasileiras, aparece também a autenticidade, propriedade ligada à confiança de que a informação, entidade ou origem declarada é aquilo que afirma ser.
Não troque os conceitos:
- segredo contra leitura indevida → confidencialidade;
- proteção contra alteração indevida → integridade;
- acesso oportuno pelo autorizado → disponibilidade;
- confiança na origem ou identidade declarada → autenticidade.
A U030 aprofunda certificados e assinatura digital, que ajudam a trabalhar autenticidade e integridade em contextos específicos.
8. Segurança da informação é mais ampla que tecnologia
Uma folha impressa abandonada sobre uma mesa pode causar violação de confidencialidade sem exploração de software. Uma pessoa pode apagar acidentalmente registros e afetar integridade ou disponibilidade. Uma sala sem controle físico pode expor equipamentos e mídias.
Por isso, medidas de segurança podem ser:
- administrativas: políticas, responsabilidades, procedimentos;
- físicas: controle de acesso a ambientes e equipamentos;
- técnicas: autenticação, permissões, cifragem, registros, redundância.
A classificação exata dos controles pode variar conforme o referencial. Para este item, o importante é reconhecer que a propriedade protegida não depende de o controle ser “digital”.
9. Método de prova: encontre o verbo da violação
Ao ler uma alternativa, procure primeiro o efeito:
- leu, divulgou, expôs ou copiou sem autorização? → confidencialidade;
- alterou, apagou, corrompeu ou substituiu indevidamente? → integridade;
- impediu, atrasou ou interrompeu o acesso legítimo? → disponibilidade;
- a questão pergunta quem é a entidade ou de onde veio a informação? → autenticidade, conceito relacionado, mas distinto da tríade literal.
Depois teste as pegadinhas:
- “disponibilidade significa 24 × 7 em qualquer sistema” → generalização indevida;
- “integridade garante que todo dado registrado é verdadeiro” → falso;
- “usuário autenticado pode acessar qualquer informação” → falso;
- “criptografia sempre garante disponibilidade” → falso;
- “segurança da informação só existe em sistemas eletrônicos” → falso.
O mapa final é simples:
confidencialidade controla conhecimento; integridade controla alteração; disponibilidade controla acesso legítimo no tempo necessário.
Referências
Referências
Programa e corte
- CEBRASPE. Edital nº 1 – PCMA – INVESTIGADOR, de 13 de julho de 2026. Programa de Informática, itens 8 e 8.1, conforme matriz consolidada da campanha PC-MA 2026. Documento oficial: https://cdn.cebraspe.org.br/concursos/PC_MA_26_INVESTIGADOR/arquivos/9EE70E72CE79EB274C5319BEEB5B9B7D8519FF48DA21986A0830B5DB02C4F8B0.pdf. Corte programático da unidade: 13 jul. 2026.
Fundamentos técnicos e institucionais
- NATIONAL INSTITUTE OF STANDARDS AND TECHNOLOGY. Information Security — CSRC Glossary. Define segurança da informação pela proteção contra acesso, uso, divulgação, interrupção, modificação ou destruição não autorizados, com preservação de confidencialidade, integridade e disponibilidade. https://csrc.nist.gov/glossary/term/information_security. Consulta editorial: 17 set. 2026.
- NATIONAL INSTITUTE OF STANDARDS AND TECHNOLOGY. Confidentiality — CSRC Glossary. Preservação de restrições autorizadas de acesso e divulgação. https://csrc.nist.gov/glossary/term/confidentiality. Consulta editorial: 17 set. 2026.
- NATIONAL INSTITUTE OF STANDARDS AND TECHNOLOGY. Availability — CSRC Glossary. Acesso e uso oportunos e confiáveis por entidade autorizada. https://csrc.nist.gov/glossary/term/availability. Consulta editorial: 17 set. 2026.
- NATIONAL CYBERSECURITY CENTER OF EXCELLENCE / NIST. NIST SP 1800-26A — Data Integrity: Detecting and Responding to Ransomware and Other Destructive Events. Resume a tríade confidencialidade–integridade–disponibilidade e diferencia as três propriedades. https://www.nccoe.nist.gov/publication/1800-26/VolA/index.html. Consulta editorial: 17 set. 2026.
- BRASIL. Decreto nº 12.572, de 4 de agosto de 2025. Institui a Política Nacional de Segurança da Informação e estabelece, entre suas finalidades, disponibilidade, integridade, confidencialidade e autenticidade. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/decreto/d12572.htm. Norma anterior ao corte de 13 jul. 2026.
- GABINETE DE SEGURANÇA INSTITUCIONAL DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Segurança da Informação é o mesmo que Segurança em Tecnologia da Informação? Explicita que segurança da informação abrange ativos, pessoas, processos e ambiente, além da tecnologia. https://www.gov.br/gsi/pt-br/assuntos/apoio/acervo/seguranca-da-informacao-e-o-mesmo-que-seguranca-em-tecnologia-da-informacao. Consulta editorial: 17 set. 2026.
- CERT.br / NIC.br. Cartilha de Segurança para Internet, versão 4.0, cap. 7. Apresenta autenticação, autorização, integridade, confidencialidade, não repúdio e disponibilidade, além de mecanismos de segurança. https://cartilha.cert.br/livro/cartilha-seguranca-internet.pdf. Consulta editorial: 17 set. 2026.
Questões anteriores usadas como base de adaptação
- CEBRASPE. Polícia Civil do Distrito Federal — área administrativa, Edital 2024. Caderno com justificativas, itens 118–120, segurança da informação: disponibilidade, confidencialidade, integridade e autenticidade. https://cdn.cebraspe.org.br/concursos/PC_DF_24_ADM/arquivos/021_PCDF_006_01.PDF. As questões deste material foram apenas adaptadas de forma não literal; o texto original não foi reproduzido. Nota de leitura: no item 120, a banca emprega “veracidade da informação” e afirma permanência sem alterações no ciclo de vida; a adaptação local pergunta por preservação contra modificação indevida. Isso não torna integridade garantia de acerto factual do dado originalmente registrado (distinção exposta em C/H). Julgamentos oficiais do próprio caderno: 118 Errado; 119 Certo; 120 Certo.