População, povoamento, densidade, urbanização e movimentos populacionais
1. Três perguntas organizam o assunto
O Maranhão pode ultrapassar sete milhões de habitantes em uma estimativa sem que o Censo 2022 tenha contado sete milhões. São Luís pode concentrar muita população e ter densidade muito superior à média estadual. E uma pessoa pode morar em Timon, trabalhar em Teresina e atravessar diariamente a divisa sem ter migrado.
Esses contrastes revelam as três perguntas que organizam o capítulo:
- Quanto há? População absoluta é o total de habitantes de um território em uma data; densidade demográfica relaciona esse total com a área.
- Onde e como a ocupação se formou? Distribuição espacial mostra onde as pessoas estão; povoamento descreve o processo histórico e o padrão espacial dessa ocupação; urbanização mede a crescente participação e organização urbana.
- Como a população muda e se move? Nascimentos e óbitos alteram o total; migração exige mudança de residência habitual; deslocamentos recorrentes para trabalho ou estudo podem ocorrer sem mudança de residência.
Por isso, populoso, denso e povoado não são sinônimos. Um território pode ter muita população absoluta e baixa densidade se sua área for muito grande; e uma média estadual de densidade não informa como os habitantes se distribuem internamente.
2. Antes de decorar números, identifique o tipo de dado
O IBGE produz números populacionais com métodos e datas diferentes. A questão só fica segura quando se identifica qual produto está sendo usado.
- Censo Demográfico: enumera a população residente em uma data de referência. O Brasil adota a população de direito, isto é, a pessoa é contada em seu local de residência habitual segundo as regras censitárias, e não simplesmente onde estava fisicamente no instante da coleta.
- Estimativa populacional: atualiza o total para uma data específica entre censos; não é uma nova enumeração domiciliar.
- Projeção populacional: modela a evolução demográfica a partir de nascimentos, óbitos e migração. A revisão de 2024 do IBGE produz projeções para Brasil e unidades da Federação e serve, entre outros usos, de base às estimativas municipais.
O corte documental desta revisão é 7 de setembro de 2026. Isso importa porque, depois do corte anterior da unidade, foi publicada a estimativa com referência em 1º de julho de 2026. Para o restante do capítulo:
- população, densidade e situação urbana/rural usam o Censo 2022;
- estimativas anuais são identificadas pelo respectivo ano;
- migração e deslocamentos usam resultados preliminares da amostra do Censo 2022: são estimativas produzidas a partir do questionário aplicado a uma amostra de domicílios e ainda mantêm a qualificação “preliminar” na divulgação do IBGE;
- estudos de integração e rede urbana são sempre identificados pela edição, porque seus recortes e bases temporais não devem ser misturados.
3. Quanto há: população, densidade e crescimento
3.1 População absoluta não é densidade
A densidade demográfica responde à pergunta “quantos habitantes, em média, correspondem a cada unidade de área?”:
em que é a densidade, a população e a área territorial.
Para o Maranhão, mantenha a data ao lado de cada número:
| Indicador | Valor | Leitura correta |
|---|---|---|
| população no Censo 2010 | 6.574.789 | enumeração censitária |
| população no Censo 2022 | 6.776.699 | valor corrente do Censo 2022 |
| estimativa em 1º/7/2025 | 7.018.211 | estimativa anual, não censo |
| estimativa em 1º/7/2026 | 7.024.557 | estimativa anual mais recente no corte |
| área territorial | 329.651,463 km² | área usada para contextualizar a densidade estadual |
| densidade no Censo 2022 | 20,56 hab./km² | população censitária dividida pela área |
O Censo 2022 não contou mais de sete milhões de habitantes: os valores acima de sete milhões são estimativas posteriores.
Também existe uma diferença de edição dentro do próprio Censo 2022. Os primeiros resultados registraram 6.775.152 habitantes; o panorama corrente do IBGE registra 6.776.699. Se uma questão trouxer o primeiro número, verifique se ela está citando a divulgação inicial.
3.2 O que mudou entre 2010 e 2022
A população passou de 6.574.789 para 6.776.699 habitantes:
- aumento absoluto de 201.910 pessoas;
- aumento relativo de aproximadamente 3,07%;
- taxa geométrica equivalente de aproximadamente 0,25% ao ano.
A taxa geométrica transforma a variação de todo o período em um ritmo anual composto:
Ela não é obtida simplesmente dividindo 3,07% por doze.
Para interpretar o crescimento, separe os componentes. Crescimento natural é nascimentos menos óbitos. Saldo migratório é imigrantes menos emigrantes, para território e período definidos. Em termos conceituais, o crescimento total resulta da combinação desses componentes, além de ajustes estatísticos necessários à mensuração. Logo, a diferença entre dois censos não pode ser chamada automaticamente de crescimento vegetativo.
4. Onde a população está: distribuição e povoamento
A densidade média estadual de 20,56 hab./km² esconde contrastes muito grandes. No Censo 2022:
| Município | População | Densidade |
|---|---|---|
| São Luís | 1.037.775 | 1.779,87 hab./km² |
| Imperatriz | 273.110 | 199,49 hab./km² |
| Alto Parnaíba | 11.109 | 1,00 hab./km² |
São Luís era o município mais populoso do estado e reunia cerca de 15,31% da população maranhense. Imperatriz era o segundo mais populoso. Alto Parnaíba mostra por que baixa densidade não significa, por si só, “pouca importância” nem decorre de área pequena: a razão depende simultaneamente de população e área.
O padrão espacial maranhense combina:
- forte concentração no litoral setentrional e na área de São Luís;
- centralidade de Imperatriz no sudoeste/oeste;
- Timon, no leste, fortemente articulada a Teresina, enquanto Caxias constitui outro centro importante no leste maranhense;
- Balsas como centro relevante no sul;
- extensas áreas de baixa densidade relativa no interior.
4.1 Povoamento é processo, não fórmula
A distribuição atual não surgiu de uma vez. Em síntese, o povoamento maranhense envolve:
- consolidação inicial no litoral setentrional e em São Luís;
- interiorização apoiada em vales fluviais, como Itapecuru, Mearim e Pindaré;
- ocupação do sul e do oeste em contato com Piauí, Bahia, Tocantins e Pará;
- expansão de rodovias, municípios e frentes de ocupação ao longo do século XX;
- fortalecimento de centros interiores, como Imperatriz e Balsas.
Povoamento explica a formação e o padrão da ocupação; densidade mede uma razão matemática em uma data.
5. Urbanização: mudança demográfica e mudança de classificação
5.1 O Maranhão se tornou mais urbano entre 2010 e 2022
| Situação do domicílio | 2010 | 2022 | Variação absoluta |
|---|---|---|---|
| urbana | 4.147.149 | 4.806.990 | +659.841 |
| rural | 2.427.640 | 1.969.709 | -457.931 |
| total | 6.574.789 | 6.776.699 | +201.910 |
A participação urbana passou de 63,08% para 70,93%, aumento de 7,85 pontos percentuais.
Isso mostra aumento da urbanização, mas não autoriza uma explicação única. A redução da população classificada como rural pode refletir migrações campo-cidade, migrações entre cidades, diferenças de crescimento natural e também mudanças na classificação territorial. Portanto, redução rural não é sinônimo automático de êxodo rural.
Também não confunda:
- urbanização: aumento da participação urbana e transformação da organização espacial;
- crescimento urbano: aumento absoluto da população urbana, que pode ocorrer mesmo sem aumento de sua participação no total.
5.2 Em 2022, urbano e rural não dependem apenas da lei municipal
No Censo 2022, o IBGE passou a dar prevalência a critérios morfológicos, ligados à dispersão ou aglomeração das edificações, e funcionais, ligados à centralidade e aos usos do território. Os perímetros e zoneamentos urbanos definidos por lei municipal são insumos complementares, não o único critério.
Assim:
- a área urbana para fins censitários não precisa coincidir integralmente com o perímetro urbano legal;
- cidades, vilas, núcleos urbanos e outras áreas efetivamente urbanizadas podem ser classificadas conforme os critérios estatísticos;
- áreas de ocupação dispersa e aglomerados rurais permanecem rurais conforme a metodologia;
- comparações urbano/rural entre 2010 e 2022 exigem cautela porque houve mudança metodológica.
6. Rede urbana: tamanho, integração e lei são coisas diferentes
Uma cidade pode ser grande sem estar fisicamente unida a outra; duas manchas urbanas podem se tocar; municípios podem ter intensa integração cotidiana; e uma lei pode criar uma região metropolitana. São fenômenos diferentes:
- metropolização: intensificação da integração funcional e espacial em torno de um grande centro;
- conurbação: continuidade física entre manchas urbanizadas de municípios distintos;
- região metropolitana legal: recorte instituído por norma jurídica;
- arranjo populacional: recorte estatístico usado pelo IBGE para representar integração entre municípios segundo critérios próprios da edição.
A criação legal de uma região metropolitana, sozinha, não prova conurbação nem integração funcional intensa entre todos os seus municípios.
Outra pegadinha de escala: município de São Luís, Ilha de Upaon-Açu, arranjo populacional de São Luís e região metropolitana são recortes diferentes — administrativo, físico-geográfico, estatístico-funcional e jurídico, respectivamente.
6.1 Leia sempre a edição do estudo
A segunda edição de Arranjos Populacionais, publicada em 2016 e baseada principalmente em dados do Censo 2010, é uma referência histórica recorrente nas questões. Naquela metodologia, integração podia ser reconhecida por intensidade dos deslocamentos pendulares e/ou continuidade da mancha urbanizada. Na composição levada à REGIC 2018, o arranjo de São Luís reunia São Luís, Paço do Lumiar, Raposa e São José de Ribamar; Timon integrava o arranjo de Teresina.
Essa REGIC 2018 responde a outra pergunta: estuda hierarquia urbana, funções de gestão, oferta de bens e serviços e regiões de influência. Não é um ranking simples de população.
O Quadro Geográfico de Referência do IBGE hoje também disponibiliza versões posteriores de arranjos populacionais, inclusive de 2025. Isso reforça a regra: não transporte automaticamente a composição ou o ano-base de uma edição para outra.
7. Movimentos populacionais: a residência é a chave
7.1 Migração exige mudança de residência habitual
Para um território e período definidos:
- imigrante é quem entra e passa a residir no território;
- emigrante é quem sai e passa a residir fora;
- saldo migratório = imigrantes − emigrantes.
O mesmo deslocamento é emigração quando visto pela origem e imigração quando visto pelo destino. Saldo zero não significa ausência de movimento: entradas e saídas podem ser numerosas e equivalentes.
Quanto à escala:
- migração interestadual muda a residência entre unidades da Federação;
- migração intraestadual muda a residência dentro do mesmo estado, por exemplo entre municípios ou entre áreas rurais e urbanas.
Movimentos intraestaduais podem reforçar polos como São Luís e Imperatriz mesmo quando o saldo interestadual do Maranhão é negativo.
7.2 Estoque, última etapa e data fixa respondem a perguntas diferentes
Imagine a trajetória de uma pessoa: nascer no Piauí, morar depois no Pará e, por fim, estabelecer residência no Maranhão. Três medidas podem contar aspectos diferentes dessa história.
| Medida | Pergunta respondida |
|---|---|
| naturalidade | onde a pessoa nasceu; permite construir um estoque acumulado, sem dizer quando migrou |
| última etapa | qual era a residência imediatamente anterior e há quanto tempo a pessoa reside sem interrupção no local atual |
| data fixa | onde a pessoa residia em duas datas determinadas; mede um fluxo em uma janela temporal definida |
No Censo 2022, os estoques por naturalidade indicaram:
- 514.870 residentes no Maranhão nascidos no Brasil e não naturais do estado; entre os principais estados de nascimento estavam Piauí, Pará e Ceará;
- 1.826.563 naturais do Maranhão residindo em outra unidade da Federação; entre os principais destinos acumulados estavam Pará, Goiás e São Paulo.
Esses números não são os imigrantes e emigrantes de 2017-2022. Eles acumulam movimentos ocorridos em diferentes momentos da vida.
Migração de retorno também exige critério explícito: é necessário definir a origem à qual a pessoa “retorna” — por exemplo, município ou unidade da Federação de naturalidade — e demonstrar que ela residiu fora desse território antes de voltar. Nascer em um lugar, sozinho, não prova retorno migratório.
7.3 Data fixa de 2017 a 2022
No Censo 2022, a medida de data fixa compara a residência em 31 de julho de 2017 com a residência na data de referência censitária de 2022, para a população abrangida pelo quesito.
Nos resultados preliminares da amostra para os fluxos interestaduais do Maranhão:
| Indicador | Valor |
|---|---|
| imigrantes | 130.658 |
| emigrantes | 259.886 |
| saldo migratório | -129.228 |
| taxa líquida migratória | -1,91% |
O saldo negativo significa apenas que, nesse território, período e recorte, as saídas superaram as entradas. Não significa imigração igual a zero e não implica, isoladamente, queda da população total, porque o crescimento natural também interfere no total.
Entre os principais fluxos recentes divulgados:
- origens de imigrantes para o Maranhão: Pará, Piauí e São Paulo;
- destinos de emigrantes do Maranhão: Goiás, Pará e Mato Grosso.
Compare com o estoque por naturalidade: os conjuntos não precisam coincidir, porque estoque acumulado e fluxo recente medem coisas diferentes.
8. Pendularidade: mover-se não é necessariamente migrar
Deslocamento pendular é o movimento recorrente entre a residência e o local de trabalho ou estudo, sem mudança necessária da residência habitual.
O exemplo mais útil no Maranhão é Timon–Teresina: uma pessoa pode morar em Timon e trabalhar em Teresina, atravessando a fronteira estadual com frequência, e continuar sendo residente do Maranhão.
Nos resultados preliminares da amostra do Censo 2022:
| Situação | Mesmo município | Outro município |
|---|---|---|
| trabalho principal | 89,8% | 9,5% |
| escola ou creche | 93,7% | 6,2% |
No quesito de trabalho de 2022, o IBGE considerou retorno frequente para casa como retorno em três dias ou mais por semana. Esse desenho não é idêntico ao de 2010, o que limita comparações diretas.
A regra conceitual permanece: trabalhar ou estudar em outro município não transforma automaticamente a pessoa em migrante. A pergunta decisiva é se houve mudança da residência habitual.
9. Um método para resolver as questões sem misturar recortes
Antes de aceitar uma afirmação, passe por esta sequência:
- Data e edição: é Censo 2010, Censo 2022, estimativa 2025, estimativa 2026 ou estudo de outra edição?
- Natureza do dado: é enumeração censitária, estimativa, projeção ou resultado preliminar da amostra?
- Território e escala: estado, município, ilha, arranjo populacional ou região metropolitana?
- Indicador: população absoluta, densidade, grau de urbanização, crescimento ou saldo migratório?
- Migração: a medida é estoque por naturalidade, última etapa ou fluxo de data fixa?
- Residência: houve mudança de residência habitual? Se não houve, um deslocamento recorrente para trabalho ou estudo é mobilidade pendular, não migração.
Se uma alternativa mistura dois desses planos — por exemplo, chama a estimativa de 2026 de “Censo 2022”, transforma estoque por naturalidade em fluxo recente ou trata região metropolitana legal como prova de conurbação — a troca de conceito é o erro central.
Referências
- CEBRASPE. Edital nº 1 do TCE-MA 2026. Conteúdo programático publicado em 6 jul. 2026. Acesso em: 4 ago. 2026.
- IBGE. Maranhão — Cidades e Estados. População censitária, área, densidade e estimativa de 2025. Acesso em: 7 set. 2026.
- IBGE. Estimativas da população residente em 1º de julho de 2025. Publicação oficial de 2025. Acesso em: 7 set. 2026.
- IBGE. Estimativas da população residente em 1º de julho de 2026. Publicação oficial de 2026. Acesso em: 7 set. 2026.
- IBGE. Censo Demográfico 2022. Conceito de população residente ou de direito e metodologia da operação. Acesso em: 7 set. 2026.
- IBGE. Projeções da População — Revisão 2024. Método das componentes demográficas e relação com estimativas populacionais. Acesso em: 7 set. 2026.
- IBGE. Sinopse do Censo 2010 — Maranhão. População residente em 2010. Acesso em: 4 ago. 2026.
- IBGE. População por situação urbana ou rural — Censo 2022. Resultados do universo e metodologia de delimitação. Acesso em: 4 ago. 2026.
- IBGE. Mapas para fins estatísticos — áreas urbanas e rurais no Censo 2022. Critérios morfológicos e funcionais e relação com zoneamentos legais. Acesso em: 7 set. 2026.
- IBGE. Censo Demográfico 2022 — Migração e fecundidade. Resultados preliminares da amostra. Acesso em: 4 ago. 2026.
- IBGE. Censo Demográfico 2022 — Deslocamentos para trabalho e estudo. Resultados preliminares da amostra. Acesso em: 4 ago. 2026.
- IBGE. Censo Demográfico 2022 — Deslocamentos para trabalho e estudo. Metodologia e frequência de retorno para casa. Acesso em: 7 set. 2026.
- IBGE. Arranjos Populacionais e Concentrações Urbanas do Brasil. 2ª ed., 2016, baseada principalmente no Censo 2010. Acesso em: 4 ago. 2026.
- IBGE. Quadro Geográfico de Referência para Produção, Análise e Disseminação de Estatísticas. Versões de arranjos populacionais e demais recortes geográficos. Acesso em: 7 set. 2026.
- IBGE. Regiões de Influência das Cidades 2018. Hierarquia, funções e áreas de influência; composição de arranjos usada na pesquisa. Acesso em: 7 set. 2026.
- IBGE. São Luís, Imperatriz e Alto Parnaíba. Panoramas municipais. Acesso em: 4 ago. 2026.