Equivalências, leis de De Morgan e diagramas lógicos

Transformação segura de fórmulas proposicionais, negação de compostas e análise de relações categóricas por diagramas lógicos.

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Equivalências, leis de De Morgan e diagramas lógicos

1. Mesma regra, outra forma

Considere duas maneiras de escrever uma condição:

pqp \to q ¬pq.\neg p \lor q.

À primeira vista, as expressões parecem diferentes. Mas a pergunta importante em lógica é outra: há alguma atribuição de valores em que uma seja verdadeira e a outra falsa? Se a resposta for não, elas dizem exatamente a mesma coisa do ponto de vista lógico.

Duas fórmulas PP e QQ são logicamente equivalentes quando recebem o mesmo valor lógico em todas as atribuições possíveis de suas proposições simples:

PQ.P \equiv Q.

A tabela-verdade confirma isso linha por linha:

ppqqpqp \to q¬pq\neg p \lor q
VVVV
VFFF
FVVV
FFVV

Portanto,

pq¬pq.p \to q \equiv \neg p \lor q.

Esse critério produz dois hábitos úteis para prova:

  • para provar equivalência por tabela-verdade, é preciso verificar todas as linhas;
  • para refutar equivalência, basta uma atribuição em que os valores finais sejam diferentes.

Há ainda um teste equivalente: PP e QQ são equivalentes exatamente quando PQP\leftrightarrow Q é uma tautologia.

2. Trocar uma parte sem mudar o todo

Uma equivalência funciona como uma substituição segura. Se duas subexpressões têm sempre o mesmo valor, uma pode substituir a outra dentro de uma fórmula maior, desde que o agrupamento seja preservado.

Como

pq¬pq,p \to q \equiv \neg p \lor q,

segue que

r(pq)r(¬pq).r \land (p \to q) \equiv r \land (\neg p \lor q).

O cuidado é estrutural: equivalência não autoriza apagar termos, mudar conectivos por semelhança visual ou mover parênteses sem uma regra que justifique a transformação. Os parênteses mostram o alcance dos conectivos e, por isso, fazem parte do problema.

3. A condicional: transforme a partir do único caso falso

A condicional material pqp\to q é falsa somente quando pp é verdadeira e qq é falsa. Logo, dizer que a condicional vale é excluir justamente esse caso:

pq¬(p¬q).p\to q \equiv \neg(p\land\neg q).

Aplicando De Morgan, que será desenvolvido adiante:

¬(p¬q)¬pq.\neg(p\land\neg q) \equiv \neg p\lor q.

Assim, as três formas centrais são:

pq¬pq¬(p¬q).p\to q \equiv \neg p\lor q \equiv \neg(p\land\neg q).

Essa cadeia é mais segura de memorizar quando se entende o mecanismo: todas as formas proíbem exatamente p=Vp=V e q=Fq=F.

3.1. Contrapositiva, conversa e inversa

Parta de:

Se o processo foi arquivado, então houve decisão.

A contrapositiva é:

Se não houve decisão, então o processo não foi arquivado.

Formalmente,

pq¬q¬p.p\to q \equiv \neg q\to\neg p.

Compare as três transformações usuais:

FormaExpressãoEquivale a pqp\to q?
conversaqpq\to pnão, em geral
inversa¬p¬q\neg p\to\neg qnão, em geral
contrapositiva¬q¬p\neg q\to\neg psim

Para ver por que a conversa pode falhar, tome p=Vp=V e q=Fq=F. Nesse caso, pqp\to q é F, enquanto qpq\to p é V. Uma única divergência já basta para eliminar a equivalência.

3.2. Negar a condicional não é fazer a contrapositiva

Negar pqp\to q significa afirmar o único cenário em que ela é falsa:

¬(pq)p¬q.\neg(p\to q) \equiv p\land\neg q.

Portanto, ao negar “se pp, então qq”, mantém-se pp e nega-se qq, ligados por conjunção. Isso é diferente de obter uma condicional equivalente.

4. De Morgan: quando a negação atravessa um agrupamento

Considere:

Não é verdade que Ana protocolou o pedido e Bruno emitiu o recibo.

Para a conjunção inteira ser falsa, basta que ao menos uma de suas partes seja falsa. Logo:

Ana não protocolou o pedido ou Bruno não emitiu o recibo.

Em símbolos:

¬(pq)¬p¬q.\neg(p\land q) \equiv \neg p\lor\neg q.

Agora negue uma disjunção:

Não é verdade que Ana protocolou o pedido ou Bruno emitiu o recibo.

Como o “ou” é inclusivo, negar a frase exige que as duas alternativas sejam falsas:

Ana não protocolou o pedido e Bruno não emitiu o recibo.

Assim,

¬(pq)¬p¬q.\neg(p\lor q) \equiv \neg p\land\neg q.

As leis de De Morgan fazem, simultaneamente, duas coisas:

  1. negam cada componente alcançada pela negação externa;
  2. trocam \land por \lor, ou \lor por \land.

Se apenas as parcelas forem negadas, mas o conectivo não for trocado, a transformação estará errada.

4.1. Cadeias e expressões aninhadas

O mesmo mecanismo vale para mais de duas componentes:

¬(pqr)¬p¬q¬r,\neg(p\land q\land r) \equiv \neg p\lor\neg q\lor\neg r, ¬(pqr)¬p¬q¬r.\neg(p\lor q\lor r) \equiv \neg p\land\neg q\land\neg r.

Em fórmulas aninhadas, trabalhe de fora para dentro. Por exemplo:

¬(p(qr))\neg\bigl(p\lor(q\land r)\bigr)

primeiro vira

¬p¬(qr),\neg p\land\neg(q\land r),

e depois

¬p(¬q¬r).\neg p\land(\neg q\lor\neg r).

A expressão “nem pp nem qq”, na leitura proposicional usual, corresponde a

¬p¬q¬(pq).\neg p\land\neg q \equiv \neg(p\lor q).

5. Outras equivalências que simplificam fórmulas

Depois de dominar a direção das transformações, as leis algébricas abaixo ajudam a encurtar expressões sem mudar seu valor lógico.

LeiForma
dupla negação¬¬pp\neg\neg p\equiv p
idempotênciapppp\land p\equiv p; pppp\lor p\equiv p
comutatividadepqqpp\land q\equiv q\land p; pqqpp\lor q\equiv q\lor p
associatividade(pq)rp(qr)(p\land q)\land r\equiv p\land(q\land r); idem para \lor
distributividadep(qr)(pq)(pr)p\land(q\lor r)\equiv(p\land q)\lor(p\land r)
distributividade dualp(qr)(pq)(pr)p\lor(q\land r)\equiv(p\lor q)\land(p\lor r)
complementop¬pp\lor\neg p\equiv\top; p¬pp\land\neg p\equiv\bot
identidadeppp\land\top\equiv p; ppp\lor\bot\equiv p
absorçãop(pq)pp\lor(p\land q)\equiv p; p(pq)pp\land(p\lor q)\equiv p

O nome da lei é menos importante que reconhecer a transformação válida. Se houver dúvida, a tabela-verdade continua sendo o critério final.

Exemplo:

(pq)(p¬q)(p\land q)\lor(p\land\neg q)

Pela distributividade,

p(q¬q).p\land(q\lor\neg q).

Como q¬qq\lor\neg q é tautologia,

pp.p\land\top\equiv p.

6. Bicondicional: igualdade de valores nas duas direções

A bicondicional pqp\leftrightarrow q é verdadeira quando pp e qq têm o mesmo valor lógico. Isso pode ser expresso exigindo as duas condicionais ao mesmo tempo:

pq(pq)(qp).p\leftrightarrow q \equiv (p\to q)\land(q\to p).

Também pode ser escrita separando os dois casos em que os valores coincidem:

pq(pq)(¬p¬q).p\leftrightarrow q \equiv (p\land q)\lor(\neg p\land\neg q).

Negá-la seleciona os casos em que os valores são diferentes:

¬(pq)(p¬q)(¬pq).\neg(p\leftrightarrow q) \equiv (p\land\neg q)\lor(\neg p\land q).

Essa última expressão é a disjunção exclusiva.

7. Um fluxo seguro para transformar fórmulas

Quando a questão pedir uma forma equivalente, proceda nesta ordem:

  1. preserve os parênteses e localize o conectivo principal;
  2. elimine \to ou \leftrightarrow se isso aproximar a fórmula do que se deseja;
  3. aplique De Morgan respeitando o alcance da negação;
  4. elimine duplas negações;
  5. procure complementos, identidade, distributividade ou absorção;
  6. registre apenas passos apoiados em equivalências válidas;
  7. se restar dúvida, compare tabelas-verdade ou busque uma atribuição divergente.

Por exemplo:

¬(pq)¬(¬pq)¬¬p¬qp¬q.\neg(p\to q) \equiv \neg(\neg p\lor q) \equiv \neg\neg p\land\neg q \equiv p\land\neg q.

O valor desse encadeamento não está em decorar quatro linhas, mas em poder justificar cada passagem.

8. Diagramas lógicos: de frases para regiões

A segunda parte do assunto muda a unidade representada. Nas fórmulas proposicionais, pp e qq representam afirmações inteiras. Nos diagramas, AA, BB e CC representam classes de objetos.

A pergunta deixa de ser “qual é o valor desta fórmula?” e passa a ser: quais regiões precisam estar vazias, quais precisam conter algum objeto e o que isso obriga a concluir?

Neste material, a convenção operacional é:

  • região hachurada: não há objeto naquela região;
  • X: existe ao menos um objeto naquela região;
  • região em branco: a existência não foi determinada;
  • X sobre uma fronteira: existe um objeto, mas as premissas não determinam em qual das sub-regiões adjacentes ele está.

Quatro diagramas categóricos: todo A é B, nenhum A é B, algum A é B e algum A não é B.

9. As quatro formas categóricas básicas

As palavras “todo”, “nenhum” e “algum” não servem apenas como rótulos: cada uma impõe uma restrição diferente ao diagrama.

AfirmaçãoO que deve aparecer no diagrama
Todo AA é BBa região de AA fora de BB fica vazia
Nenhum AA é BBa região ABA\cap B fica vazia
Algum AA é BBhá um X em ABA\cap B
Algum AA não é BBhá um X em ABA\setminus B

9.1. “Todo A é B”: inclusão, não igualdade

“Todo AA é BB” significa:

AB.A\subseteq B.

A parte de AA que ficaria fora de BB deve estar vazia. A frase não autoriza inverter a relação. De “todo auditor é servidor” não se conclui “todo servidor é auditor”.

9.2. “Nenhum A é B”: interseção vazia

“Nenhum AA é BB” significa:

AB=.A\cap B=\varnothing.

A exclusão é simétrica: se nenhum AA é BB, também nenhum BB é AA.

9.3. “Algum”: existência efetiva

“Algum AA é BB” exige:

AB.A\cap B\neq\varnothing.

Já “algum AA não é BB” exige:

AB.A\setminus B\neq\varnothing.

Em ambos os casos, a palavra “algum” introduz existência: há pelo menos um objeto na região indicada.

10. Universal restringe; existencial coloca X

No método de diagramas de Venn adotado aqui, uma premissa universal como “todo AA é BBrestringe regiões, mas não cria um objeto por si só. Portanto, ela não basta para concluir “algum AA é BB”.

Uma premissa existencial, como “algum”, autoriza inserir X. Informação sobre um indivíduo determinado também pode fornecer existência. Se a questão declarar outra convenção, siga expressamente o enunciado.

Essa distinção evita um erro frequente: confundir “não pode haver elemento aqui” com “há necessariamente elemento ali”. Hachura fala de impossibilidade; X fala de existência.

11. Negar frases categóricas: procure o que derruba a afirmação

Negar uma universal exige um contraexemplo. Negar uma afirmação existencial exige eliminar todos os casos daquele tipo.

AfirmaçãoNegação correta
Todo AA é BBAlgum AA não é BB
Nenhum AA é BBAlgum AA é BB
Algum AA é BBNenhum AA é BB
Algum AA não é BBTodo AA é BB

Por exemplo, para tornar falsa a frase “todo auditor é servidor”, não é preciso que nenhum auditor seja servidor. Basta existir um auditor que não seja servidor.

12. Três classes: restrinja antes de posicionar existência

Com três classes, cada região pode se subdividir conforme pertença ou não à terceira classe. Um X colocado cedo demais pode parecer determinado quando, na verdade, duas posições continuam possíveis.

Use este procedimento:

  1. desenhe as sobreposições ainda compatíveis com as premissas;
  2. aplique primeiro as universais, hachurando as regiões proibidas;
  3. depois posicione os X exigidos pelas premissas existenciais;
  4. se um X puder ocupar duas sub-regiões, mantenha-o sobre a fronteira pertinente;
  5. não acrescente inclusão, exclusão ou existência que as premissas não forneçam.

A ordem “restrições antes de existências” reduz escolhas artificiais feitas apenas para favorecer uma conclusão.

13. Padrões de inferência que o diagrama torna visíveis

13.1. Inclusões encadeadas

Se

ABeBC,A\subseteq B \quad\text{e}\quad B\subseteq C,

então

AC.A\subseteq C.

Assim, de “todo auditor é servidor” e “todo servidor é capacitado” segue “todo auditor é capacitado”.

13.2. Existência no conjunto menor sobe para o maior

Premissas:

  1. Todo auditor é servidor.
  2. Algum auditor é gestor.

O objeto que é auditor e gestor também precisa ser servidor. Logo, algum servidor é gestor.

13.3. Existência no conjunto maior não desce para o menor

Premissas:

  1. Todo auditor é servidor.
  2. Algum servidor é gestor.

O servidor gestor pode estar fora da classe dos auditores. Portanto, não é necessário concluir que algum auditor seja gestor.

13.4. Inclusão combinada com exclusão

Se todo AA é BB e nenhum BB é CC, então nenhum AA é CC: tudo o que pertence a AA está dentro de uma classe já excluída de CC.

13.5. Existência combinada com exclusão

Se algum AA é BB e nenhum BB é CC, o objeto existente em ABA\cap B necessariamente está fora de CC. Logo, algum AA não é CC.

14. Necessário, possível e incompatível

Um diagrama não serve para mostrar apenas uma configuração conveniente. Ele serve para representar todas as configurações permitidas pelas premissas.

Uma conclusão é:

  • necessária: verdadeira em todos os diagramas compatíveis com as premissas;
  • possível: verdadeira em pelo menos um diagrama admissível, mas não em todos;
  • incompatível: viola alguma restrição das premissas.

Para refutar que uma conclusão é necessária, basta construir um diagrama compatível em que ela seja falsa. Esse é o equivalente diagramático do contraexemplo usado para refutar uma equivalência lógica.

15. Como atacar questões deste assunto

Quando houver fórmulas

  1. identifique o conectivo principal e o alcance das negações;
  2. escolha a equivalência que aproxima a expressão do objetivo;
  3. transforme uma etapa por vez;
  4. preserve os agrupamentos;
  5. procure uma linha divergente se quiser refutar uma equivalência.

Quando houver classes e diagramas

  1. identifique quais termos nomeiam classes;
  2. traduza “todo”, “nenhum”, “algum” e “algum não” em regiões vazias ou existentes;
  3. aplique universais antes das existenciais;
  4. preserve X indeterminado quando mais de uma posição continuar possível;
  5. teste se a conclusão vale em todos os diagramas compatíveis, não apenas no desenho mais favorável.

O fio comum entre as duas partes do capítulo é o mesmo: uma conclusão só é necessária quando não existe uma configuração admissível que a derrube.

Referências
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