Teoria geral dos direitos fundamentais
Para classificar um item: qual é o plano de proteção, quem pode invocar o direito, contra quem, com que eficácia e sob qual limite? O mesmo bem pode ser direito humano internacional e direito fundamental constitucional.
Plano, titular e função
| Pergunta | Recuperação |
|---|---|
| Qual expressão? | “Direitos do homem”: formulação jusnaturalista; direitos humanos: proteção no plano internacional; fundamentais: proteção na Constituição interna. É distinção de fonte, não de conteúdos necessariamente opostos. |
| Direito ou garantia? | Locomoção é direito; habeas corpus é instrumento de proteção. Devido processo pode ser direito e exercer função garantidora. |
| Quem é titular? | Pessoa natural, inclusive estrangeiro não residente ou apátrida conforme o direito; pessoa jurídica quando compatível; grupos e coletividades. Universalidade não entrega cada direito a todos em condições idênticas. |
| O que exige? | Defesa contra ingerência; prestação material, normativa ou organizacional; proteção contra terceiros; processo, informação ou participação. Ao Estado cabem respeitar, proteger e realizar. |
Duas faces do mesmo direito: a subjetiva é a posição exigível pelo titular; a objetiva orienta os poderes, a interpretação, a proteção contra terceiros e a incidência em relações privadas. Uma omissão pode configurar proteção insuficiente. A eficácia vertical incide na relação pessoa–Estado; a horizontal, entre particulares. Nesta, incidência direta usa o próprio direito constitucional como parâmetro; indireta passa pela lei, cláusulas gerais e interpretação do direito privado. No Recurso Extraordinário 201.819, a exclusão de associado da União Brasileira de Compositores exigiu contraditório e ampla defesa no caso concreto. Autonomia privada não dá imunidade constitucional.
Características e dimensões sem automatismos
| Expressão | O que afasta o erro |
|---|---|
| Historicidade | Reconhecimento e leitura mudam no tempo; isso não permite supressão por maioria simples. |
| Universalidade, indivisibilidade e interdependência | Proteção básica alcança toda pessoa; categorias integram um conjunto e dependem umas das outras. A Declaração de Viena de 1993 também diz inter-relacionados; não impõe titularidade idêntica nem hierarquia de valor entre grupos. |
| Inalienabilidade, imprescritibilidade e irrenunciabilidade | O núcleo não é mercadoria nem se perde apenas pelo tempo ou por renúncia geral. Efeitos patrimoniais e pretensões indenizatórias podem ter prazos; consentimento ou não exercício pontual não são renúncia definitiva. |
| Relatividade | Direitos convivem com outros bens constitucionais; limitação precisa de fundamento e justificação, não de “interesse público” genérico. |
| Dimensão histórica | Associação principal | Cuidado |
|---|---|---|
| Primeira | Liberdades civis e direitos políticos | Pode exigir proteção ou prestação estatal; não é só abstenção. |
| Segunda | Igualdade material; direitos sociais, econômicos e culturais | Não é apenas despesa ou prestação. |
| Terceira | Solidariedade; interesses que ultrapassam o indivíduo, como ambiente e desenvolvimento | Não extingue as duas primeiras. |
As dimensões se acumulam. Quarta e quinta não têm classificação doutrinária uniforme: atenda ao autor indicado, se houver.
Constituição: quatro parágrafos e eficácia
| Artigo 5º | Chave operacional |
|---|---|
| § 1º | Aplicação imediata das normas definidoras de direitos e garantias fundamentais. |
| § 2º | Catálogo aberto a direitos decorrentes do regime, dos princípios e dos tratados de que o Brasil seja parte; direito fundamental pode estar fora do artigo 5º. |
| § 3º | Tratado de direitos humanos aprovado em cada Casa, em dois turnos, por três quintos dos respectivos membros equivale a emenda constitucional. |
| § 4º | Submissão à jurisdição do Tribunal Penal Internacional a cuja criação o Brasil tenha aderido. |
Imediata não significa plena: norma de eficácia plena aplica-se direta, imediata e integralmente; contida, direta e imediatamente, mas admite restrição autorizada; limitada requer integração para todos os efeitos, porém já vincula poderes, impede atuação incompatível e pode fundamentar controle da omissão.
| Tratado incorporado | Posição no direito interno |
|---|---|
| Direitos humanos com rito do § 3º | Equivalente a emenda constitucional. Exemplos: Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, Tratado de Marraqueche e Convenção Interamericana contra o Racismo. |
| Direitos humanos sem esse rito | Supralegal, conforme o Supremo Tribunal Federal no Recurso Extraordinário 466.343. |
| Tratado comum | Em regra, nível de lei ordinária, ressalvado regime específico. |
Depositário infiel: a Súmula Vinculante 25 considera ilícita sua prisão civil em qualquer modalidade. A Convenção Americana sobre Direitos Humanos, em posição supralegal, impede aplicar leis incompatíveis que a autorizavam; não revogou o texto do artigo 5º, inciso LXVII, nem superou a Constituição.
Limite, colisão e proteção internacional
- Restrição: identifique fundamento constitucional, autoridade competente e fim legítimo. Teste adequação (meio serve ao fim?), necessidade (existe meio igualmente eficaz e menos restritivo?) e proporcionalidade em sentido estrito (o benefício justifica o sacrifício?).
- Colisão: nenhuma hierarquia abstrata automática. A concordância prática exige solução fundamentada no caso.
- Cláusula pétrea: o artigo 60, § 4º, inciso IV, veda emenda tendente a abolir direitos e garantias individuais; nem toda disciplina ou alteração os abole.
- Duas camadas: dignidade da pessoa humana é fundamento da República; prevalência dos direitos humanos é princípio de suas relações internacionais. A proteção internacional complementa a interna, sem se tornar recurso ordinário contra qualquer decisão nacional.
Filtro final: direito humano ≠ conteúdo oposto ao fundamental; aplicação imediata ≠ eficácia plena; catálogo aberto ≠ invenção livre; todo tratado de direitos humanos ≠ emenda; particular ≠ imune; relatividade ≠ restrição arbitrária.