Fatos sociais do Maranhão na segunda metade do século XX

Urbanização, trabalho, questão agrária, desigualdades, direitos e movimentos sociais no Maranhão entre 1951 e 2000.

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Fatos sociais do Maranhão na segunda metade do século XX

O que mudou na vida social maranhense?

Entre 1951 e 2000, o Maranhão ficou mais urbano, integrou novas áreas por rodovias e grandes projetos, diversificou o trabalho e ampliou direitos. Ao mesmo tempo, o campo continuou decisivo, a disputa pela terra se intensificou em várias regiões e o acesso a moradia, saneamento, transporte e outros serviços permaneceu desigual.

A melhor forma de organizar o período é enxergar uma cadeia de relações, e não uma lista de fatos isolados:

mudanc¸as produtivas e fundiaˊrias+crescimento e deslocamentos populacionaisurbanizac¸a˜o, conflitos e desigualdadesnovas formas de organizac¸a˜o coletiva\text{mudanças produtivas e fundiárias} +\text{crescimento e deslocamentos populacionais} \rightarrow \text{urbanização, conflitos e desigualdades} \rightarrow \text{novas formas de organização coletiva}

A Greve de 1951 funciona apenas como ponte com o assunto anterior. Política e economia entram aqui quando ajudam a explicar efeitos sociais. Já a demografia sistemática — população, densidade, povoamento, taxas e fluxos migratórios detalhados — pertence ao Assunto 088.

Crescer, migrar e urbanizar não são a mesma coisa

O Maranhão ganhou população ao longo da segunda metade do século XX, embora o ritmo desse crescimento tenha mudado. A série histórica do IBGE mostra desaceleração depois de 1980, sem queda absoluta da população estadual. Um mecanismo geral ajuda a entender esse tipo de mudança: a transição demográfica. Em sua sequência típica, a mortalidade cai antes da fecundidade; por algum tempo, o crescimento se acelera. Quando a fecundidade também cai, a população pode continuar aumentando, mas em ritmo menor.

Esse mecanismo não deve ser usado como explicação única. Migrações também alteraram a distribuição da população. Para não confundir os movimentos:

  • migração interestadual cruza a fronteira entre estados;
  • migração intraestadual ocorre dentro do próprio Maranhão;
  • migração de retorno acontece quando alguém volta a um território onde já residia.

Assim, o Maranhão pôde ser ao mesmo tempo lugar de saída, de chegada, de deslocamentos internos e de retorno. O efeito social importa mais aqui do que a contagem de cada fluxo: famílias, mercados de trabalho e cidades foram reorganizados.

Também separe dois conceitos:

  • urbanização: aumento da participação da população urbana no total;
  • crescimento urbano: aumento absoluto do número de moradores das cidades.

No Censo Demográfico de 2000, o IBGE registrou população urbana maior que a rural no Maranhão. Isso é um marco da transformação do período, mas não significa desaparecimento do campo nem universalização de infraestrutura.

São Luís e Imperatriz: dois caminhos de expansão urbana

A urbanização não ocorreu pelo mesmo mecanismo em todo o estado.

Em Imperatriz, a integração rodoviária ampliou acessibilidade e circulação, fortaleceu comércio e serviços e atraiu população. A rodovia Belém-Brasília foi decisiva para a nova centralidade regional, mas não foi causa única do crescimento: migração, atividades econômicas e serviços se reforçaram mutuamente.

Em São Luís, a expansão já se intensificava antes dos grandes projetos industriais dos anos 1980. Migração, crescimento natural, concentração de serviços, investimentos públicos e políticas urbanas ampliaram a cidade; depois, PGC, Alumar e o Distrito Industrial acrescentaram novas pressões e expectativas.

Dois conceitos ajudam a interpretar esse processo. Periferização é a produção de áreas urbanas com acesso desigual à terra, à moradia, ao transporte e aos serviços; não é simplesmente “morar longe do centro”. Segregação socioespacial é a distribuição desigual de grupos sociais e infraestrutura pelo espaço urbano.

Em São Luís, isso apareceu na coexistência de valorização imobiliária, ocupações populares, autoconstrução, palafitas e conjuntos habitacionais. A política financiada pelo BNH, executada localmente também pela COHAB-MA, produziu milhares de moradias, mas não atendeu automaticamente toda a demanda nem todas as faixas de renda. Urbanizar-se mais não equivale a tornar-se socialmente homogênea.

Trabalho: diversificação sem absorção de todos

No campo coexistiam posseiros, pequenos proprietários, parceiros, arrendatários, agricultores familiares, trabalhadores temporários e pessoas ligadas ao extrativismo do babaçu. A expansão da pecuária, da madeira e de projetos empresariais alterou tanto as relações de trabalho quanto o acesso à terra.

Nas cidades cresceram comércio, construção civil, funcionalismo, serviços, trabalho doméstico, indústria e ocupações informais. Os grandes projetos criaram empregos e expectativas, mas a contratação era seletiva e não absorveu toda a população atraída ou deslocada.

Essa distinção é importante para prova:

crescimento econoˆmicoemprego formal para todos\text{crescimento econômico} \neq \text{emprego formal para todos}

A terra vira um eixo central de conflito

A questão agrária conecta quase todo o período. Estradas tornaram áreas antes pouco integradas mais acessíveis; incentivos e projetos elevaram o interesse econômico pela terra; pecuária e exploração madeireira avançaram; e o Estado reorganizou a gestão de terras públicas. O resultado foi a sobreposição de interesses de posseiros, agricultores familiares, migrantes, empresas e agentes públicos.

A sequência institucional mais útil é:

  1. 1968 — o Decreto estadual nº 3.831 criou a Reserva Estadual de Terras e as Delegacias de Terras;
  2. 1969 — a Lei estadual nº 2.979 tornou-se marco da política de destinação das terras devolutas;
  3. 1971 — a Lei estadual nº 3.230 criou a COMARCO.

No vocabulário da época, terras devolutas eram terras públicas sujeitas a destinação e titulação segundo a legislação. A criação da COMARCO integrou uma política de colonização e ordenamento territorial. Colonização dirigida significa que o poder público procurava conduzir a ocupação por projetos e áreas previamente definidos, em vez de apenas acompanhar deslocamentos espontâneos.

A ideia de ocupar “espaços vazios” precisa ser lida criticamente: baixa densidade ou ausência de título formal não significavam ausência de moradores, trabalho, uso da terra ou reivindicações. Por isso, políticas de regularização e atração de empreendimentos podiam também produzir expropriação e conflito.

Conceitos para enxergar o conflito

ConceitoO que significa neste assunto
posseexercício concreto do controle ou uso da terra, com ou sem título de propriedade
propriedadedireito formalmente reconhecido sobre a terra
grilagemfraude empregada para criar ou legitimar domínio fundiário
expropriaçãoperda dos meios com que uma família produz e reproduz sua vida
terra de trabalhoterra usada prioritariamente para a reprodução familiar pelo trabalho
terra de negócioterra tratada como fonte de renda, valorização ou especulação

Esses conceitos não são intercambiáveis. Um posseiro pode não ser proprietário; nem todo conflito envolve grilagem; e conflito agrário não é sinônimo de massacre, termo que pressupõe um episódio específico de violência coletiva documentada.

Organização rural: antes de 1964 já havia mobilização

A organização dos trabalhadores rurais não nasceu nos anos 1980. Na década de 1950 já existiam associações ligadas às lutas por terra e reforma agrária. Em 1956, foi criada a ATAM, que articulou organizações de lavradores em diferentes municípios.

No início dos anos 1960, educação popular e organização sindical se aproximaram. O MEB, criado em 1961, atuava com alfabetização e formação social. No Vale do Pindaré, atividades do MEB em 1962 aproximaram educação popular, debates sobre sindicalismo e cooperativismo e conflitos concretos pela terra; desse ambiente surgiram escolas comunitárias e novas lideranças.

Em 1963, a organização sindical rural ganhou forma no Pindaré. O importante é o encadeamento:

conflito por terra e trabalhoassociac¸a˜o e educac¸a˜o popularsindicalizac¸a˜o\text{conflito por terra e trabalho} \rightarrow \text{associação e educação popular} \rightarrow \text{sindicalização}

Depois do golpe de 1964, lideranças e organizações sofreram repressão, e sindicatos sobreviventes passaram a atuar sob maior controle institucional. Portanto, é errado imaginar que o regime militar “criou” a mobilização rural: ele encontrou uma organização que já existia e a reprimiu.

Igreja e mediação social: organizações diferentes, funções diferentes

A Igreja Católica não agiu como um bloco uniforme. Para este assunto, três experiências ajudam a distinguir formas de atuação:

OrganizaçãoPapel predominante
MEBeducação popular e formação de lideranças
CEBsorganização comunitária territorial e participação de leigos
CPTapoio a trabalhadores rurais e atuação na questão agrária

Sacerdotes e leigos também podiam atuar em educação, assessoria, formação, apoio jurídico e articulação de demandas. A função concreta importa mais do que tratar “a Igreja” como sujeito único.

Não confunda CEB com sindicato ou partido, nem CPT com entidade estatal.

Grandes projetos: emprego e infraestrutura, mas também novas pressões

Nos anos 1980, PGC, EFC, Alumar e Distrito Industrial interessam aqui pelos efeitos sociais, não pela cronologia econômica detalhada estudada no assunto anterior.

Eles contribuíram para:

  • atrair trabalhadores e alimentar expectativas de emprego;
  • valorizar terras urbanas e rurais;
  • pressionar moradia, transporte e serviços;
  • provocar remanejamentos e disputas territoriais;
  • transformar mercados de trabalho;
  • estimular novas mobilizações comunitárias.

A relação causal é múltipla. A industrialização reforçou mudanças já em curso, mas não explica sozinha a periferização de São Luís, assim como um grande projeto não explica todo conflito fundiário do estado.

Quebradeiras de coco: trabalho, território e protagonismo feminino

O trabalho das quebradeiras de coco babaçu articulava renda familiar, conhecimento sobre os babaçuais e acesso a áreas de coleta. Cercamentos, derrubada de palmeiras e restrições de acesso ameaçavam ao mesmo tempo trabalho e reprodução familiar. Por isso, a defesa do babaçu tornou-se também uma luta por território e autonomia.

Nas décadas de 1980 e 1990, clubes de mães, associações, sindicatos e grupos locais ajudaram a ampliar a organização coletiva. Quatro marcos ordenam o processo:

  • 1989 — fundação da ASSEMA, no contexto das lutas agrárias do Médio Mearim;
  • 1991 — primeiro Encontro Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu e criação de uma articulação interestadual;
  • 1995 — no segundo encontro, consolidação do nome MIQCB;
  • 1997 — Lago do Junco aprovou a Lei Municipal nº 05/1997, reconhecida pelo MIQCB como marco pioneiro do Babaçu Livre.

A ASSEMA é uma associação de articulação, formação e apoio a comunidades rurais; o MIQCB é um movimento interestadual de quebradeiras. Nenhum dos dois é sinônimo de sindicato ou cooperativa.

A lei de 1997 reconheceu a reivindicação de acesso ao babaçu, mas as medidas protetivas mais detalhadas hoje associadas à legislação de Lago do Junco foram incorporadas pela Lei nº 01/2002. Como 2002 está fora do recorte, essas regras posteriores não devem ser atribuídas à lei pioneira.

1988 amplia direitos, mas não garante execução automática

A Constituição de 1988 reorganizou o marco jurídico dos direitos sociais e territoriais. No contexto maranhense, quatro efeitos são especialmente relevantes:

  • saúde, educação e assistência ganharam bases constitucionais mais amplas;
  • o SUS foi estruturado na nova ordem constitucional;
  • o art. 231 reconheceu os direitos originários dos povos indígenas sobre as terras tradicionalmente ocupadas;
  • o art. 68 do ADCT reconheceu, nas condições previstas, a propriedade definitiva aos remanescentes das comunidades dos quilombos que ocupassem suas terras.

A Constituição muda o fundamento jurídico da reivindicação, não apaga o problema social. Demarcação, titulação, oferta de serviços e redução de desigualdades dependem de políticas, procedimentos e capacidade institucional.

Essa diferença entre direito formal e efetivação é uma das permanências do período: até 2000, a ampliação de direitos e serviços convivia com fortes desigualdades entre campo e cidade, capital e interior, centro e periferia.

O período combina ruptura e permanência

O que mudouO que continuou relevante
população tornou-se majoritariamente urbanao campo permaneceu socialmente decisivo
trabalho urbano se diversificouinformalidade e desigualdade continuaram
infraestrutura e grandes projetos ganharam escalaconflitos territoriais persistiram
novas organizações comunitárias se fortaleceramconcentração do acesso à terra permaneceu
Constituição de 1988 ampliou direitosefetivação continuou desigual
quebradeiras ampliaram sua organizaçãoextrativismo familiar seguiu importante

Esse quadro evita dois erros opostos: imaginar uma modernização que resolveu automaticamente as desigualdades ou, ao contrário, tratar a segunda metade do século XX como se nada estrutural tivesse mudado.

Linha do tempo para reconstruir o raciocínio

Ano/períodoMarco socialO que ele ajuda a explicar
1951crise e mobilização urbanaponte com o assunto anterior
1956criação da ATAMorganização rural anterior ao regime militar
1962-1963atuação do MEB e sindicalização no Pindaréeducação popular → organização coletiva
1964repressão após o golperuptura na organização rural
1968-1971Reserva/Delegacias → Lei de Terras → COMARCOinstitucionalização da política fundiária
anos 1970urbanização, migrações e conflitos se intensificamtransformação rural-urbana
anos 1980grandes projetos e novas mobilizaçõespressão sobre trabalho, moradia e território
1988nova ordem constitucionalampliação de direitos sociais e territoriais
1989fundação da ASSEMAarticulação rural no Médio Mearim
1991-1995articulação interestadual → MIQCBprotagonismo das quebradeiras
1997Lei nº 05/1997 de Lago do Juncomarco pioneiro do Babaçu Livre
2000população urbana já supera a ruralfechamento do recorte

Para resolver questões, privilegie sempre o mecanismo: causa única costuma ser uma armadilha; mudança jurídica não é execução automática; urbanização não elimina o campo; e organizações que atuam juntas não se tornam a mesma entidade.

Referências
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