Balaiada: caracterização e causas
Fórmula mental
terra e escravida˜o+crise e pobreza+bem-te-vis x cabanos+Lei dos Prefeitos e recrutamento→Balaiada
Recorte essencial
- Tempo: fim de 1838 a 1841.
- Depois do conflito: Negro Cosme foi executado em 1842.
- Núcleo: Maranhão Oriental e vale do Parnaíba.
- Abrangência: Maranhão e Piauí; repercussões no Ceará.
- Nome: vem do apelido de Manuel Francisco dos Anjos Ferreira, o Balaio.
- Estopim: libertação de presos na Vila da Manga por Raimundo Gomes.
Caracterização em uma linha
Movimento social, político e armado, popular e heterogêneo, interprovincial, sem comando ou programa único.
Causas por nível
| Nível | Fatores |
|---|
| estrutural | concentração da terra, escravidão, hierarquias raciais, conflito plantation/campesinato, cidadania restrita |
| conjuntural | dificuldades do algodão, pobreza, disputa bem-te-vis x cabanos, instabilidade provincial |
| institucional | Lei dos Prefeitos, nomeações e perseguições locais |
| coercitivo | recrutamento compulsório, prisões, violência de autoridades |
| imediato | prisão/recrutamento na comitiva de Raimundo Gomes e invasão da cadeia |
| mobilizador | adesão de Balaio, Negro Cosme e outras colunas |
Economia sem simplificação
Correto
- Algodão e arroz continuavam relevantes.
- Havia dificuldades no setor exportador.
- Existiam pecuária, abastecimento interno e economia camponesa.
- Plantation e produção camponesa conviviam e conflitavam.
- A crise agravou tensões já existentes.
Errado
- “Algodão e arroz fracassaram por completo.”
- “A economia era exclusivamente açucareira.”
- “A concorrência norte-americana causou tudo sozinha.”
- “Todos os proprietários tinham os mesmos interesses.”
Maranhão Oriental
- Migrantes do Piauí e do Ceará.
- Proprietários médios e pequenos fazendeiros.
- Mercado de terras ainda limitado.
- Formas não privadas de uso da terra.
- Camponeses e criadores voltados ao mercado interno.
- Áreas extensas de controle estatal precário.
Três matrizes do campesinato
- indígenas aldeados ou destribalizados;
- descendentes de africanos libertos, forros ou aquilombados;
- migrantes sertanejos, sobretudo cearenses e piauienses.
Bem-te-vis x cabanos
| Bem-te-vis | Cabanos |
|---|
| liberais de oposição | conservadores governistas |
| jornal Bem-te-vi e redes oposicionistas | autoridades e redes ligadas ao governo provincial |
| tentaram articular e dirigir a revolta | empregaram mecanismos de controle e repressão |
| não eram sinônimo de balaios | não são os cabanos da Cabanagem paraense |
Elites liberais influíram, mas os grupos populares tiveram agência e objetivos próprios.
Lei dos Prefeitos
- Prefeitos e subprefeitos nomeados pelo presidente provincial.
- Maior interferência do governo nas localidades.
- Redução do espaço de autoridades locais eleitas, como juízes de paz.
- Favorecimento das redes cabanas.
- Perseguição de opositores.
- Não instituiu eleição direta de prefeitos.
Recrutamento: três funções
| Função | Sentido |
|---|
| causa social | atingia principalmente homens livres pobres |
| arma política | podia selecionar e punir adversários |
| estopim | prisões na comitiva de Raimundo Gomes provocaram a reação na Manga |
Vila da Manga
- integrantes da comitiva e irmão de Raimundo Gomes são presos/recrutados;
- Raimundo reúne apoiadores;
- invade a cadeia;
- liberta presos e obtém armas;
- novas adesões transformam o episódio em revolta regional.
- 13 dez. 1838: invasão/libertação em muitas cronologias.
- 14 dez. 1838: manifesto ou afirmação pública em outras.
- Datas podem indicar atos sucessivos.
Composição social
- vaqueiros, lavradores, roceiros e artesãos;
- posseiros e pequenos fazendeiros;
- caboclos, indígenas e migrantes;
- negros livres e libertos;
- escravizados fugidos e quilombolas;
- setores liberais bem-te-vis.
Heterogeneidade significa aliança instável, não ausência de política.
Lideranças
| Pessoa | Papel | Pegadinha |
|---|
| Raimundo Gomes | vaqueiro; libertação na Manga; chefe de coluna | não foi líder único |
| Balaio | artesão da palha; liderança popular | seu apelido nomeou a revolta, mas ele não iniciou a cadeia |
| Negro Cosme | líder quilombola; milhares de seguidores | dimensão antiescravista não torna todo o movimento abolicionista |
| Lívio Lopes | fazendeiro, militar e liberal piauiense | posição social diferente das lideranças populares |
| Luís Alves | presidente e comandante imperial | futuro Duque de Caxias; título posterior |
| Barão da Parnaíba | governo e repressão no Piauí | causas piauienses não eram mera cópia do Maranhão |
Projetos diferentes
| Grupo | Interesse predominante |
|---|
| liberal oposicionista | afastar cabanos e disputar governo/cargos |
| sertanejo livre pobre | resistir a recrutamento, violência e dependência |
| pequeno fazendeiro | proteger autonomia local e propriedade |
| quilombola/escravizado | conquistar liberdade e evitar reescravização |
Escala e táticas
- Colunas móveis e comando descentralizado.
- Emboscadas, matas, surpresa e fechamento de estradas.
- Ataques a fazendas e localidades.
- Libertação de presos e escravizados.
- Circulação entre Maranhão e Piauí.
- Tomada de Caxias demonstra a escala alcançada.
Repressão
- Luís Alves foi nomeado e enviado em dezembro de 1839.
- Chegou ao porto de São Luís em 4 fev. 1840.
- Tomou posse da presidência e do comando das armas em 7 fev. 1840.
- Concentrou presidência provincial e comando das armas.
- Reorganizou tropas e bloqueou abastecimento.
- Explorou divisões internas.
- Anistia de 1840 ajudou a separar grupos.
- Escravizados não receberam tratamento igual.
- “Pacificação” incluiu captura, morte e reescravização.
Cronologia mínima
| Data | Marco |
|---|
| dez. 1838 | Vila da Manga e início do levante |
| 1839 | expansão, adesão de novas lideranças e tomada de Caxias |
| 12 dez. 1839 | nomeação de Luís Alves para a presidência e o comando das armas |
| 4-7 fev. 1840 | chegada ao porto, desembarque e posse em São Luís |
| ago. 1840 | anistia imperial |
| 1841 | rendições e declaração de pacificação |
| 1842 | execução de Negro Cosme |
Debates historiográficos
“Bandidos”
- Linguagem das autoridades repressoras.
- Não é descrição neutra.
- Atos populares tinham conteúdo político mesmo sem programa escrito central.
“Manipulados pelos liberais”
- Bem-te-vis influíram e tentaram dirigir.
- Populações pobres e quilombolas tiveram agência própria.
- Instrumentalização e autonomia coexistiram.
“Movimento abolicionista”
- Houve dimensão antiescravista forte sob Negro Cosme.
- Não existiu programa abolicionista único para todas as colunas.
Método de prova
- Classifique a causa: estrutural, conjuntural ou imediata.
- Desconfie de “apenas”, “exclusivamente” e “todos”.
- Separe facção política de grupo social.
- Confira personagem, título e data.
- Trate números exatos como estimativas quando as fontes divergem.
Pegadinhas
- 1838-1841, não 1842 como período principal.
- Maranhão e Piauí; Ceará com repercussões.
- Cabanos maranhenses não são Cabanagem.
- Bem-te-vis não são todos os balaios.
- Raimundo Gomes: vaqueiro.
- Balaio: artesão.
- Negro Cosme: liderança quilombola.
- Luís Alves: futuro Duque de Caxias.
- Crise do algodão: fator, não causa única.
- Lei dos Prefeitos: nomeação, não eleição.
- Recrutamento: causa e estopim.
- Anistia: seletiva e desigual.
- Item constitucional da PM/MA 2017: anulado por ambiguidade.