3. Levantamentos de locais contra a pessoa e o patrimônio

Finalidades do levantamento criminalístico, documentação do local, relações espaciais, hipóteses técnicas e contrastes entre ocorrências contra a pessoa e contra o patrimônio.

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Levantamentos de locais contra a pessoa e o patrimônio

1. Levantar o local é transformar uma cena em informação examinável

Depois de preservar o local, surge outra pergunta: como registrar o que existe ali de modo que o exame consiga responder questões técnicas depois que a cena já tiver sido modificada ou liberada?

O levantamento de local é o conjunto de atividades de exame e documentação destinado a reconhecer, fixar e relacionar elementos materiais do ambiente para esclarecer as circunstâncias do fato.

A finalidade não é “reconstituir uma história convincente” logo no início. É construir uma base verificável:

estado encontrado → posições e relações → vestígios relevantes → exames → hipóteses testáveis → conclusão limitada

A unidade anterior cuidou de classificação, isolamento e preservação. Aqui o foco começa depois que a cena está protegida.

2. O que o levantamento precisa preservar como informação

O artigo 158-B do CPP separa etapas que ajudam a entender o levantamento:

  • reconhecimento: distinguir elemento de potencial interesse pericial;
  • fixação: descrever detalhadamente o vestígio e sua posição no local ou no corpo de delito;
  • coleta: retirar o vestígio para análise, quando cabível.

A ordem mental é importante:

antes de retirar, registre o que era, onde estava e com o que se relacionava.

Um objeto fora de posição pode perder parte de seu valor interpretativo mesmo que continue fisicamente disponível.

3. Fixação não é apenas fotografia

A fixação pode combinar formas complementares de documentação.

3.1 Descrição escrita

Registra características relevantes do ambiente, objetos, posições, danos, acessos, vestígios e alterações conhecidas.

Uma boa descrição diferencia:

  • observação — o que foi efetivamente visto ou medido;
  • informação recebida — o que terceiros relataram;
  • inferência — o que o conjunto pode sugerir.

Misturar essas camadas transforma hipótese em “fato observado”.

3.2 Fotografia e vídeo

Servem para conservar relações espaciais e aspectos visuais do local.

Uma sequência didática útil é:

  1. contexto geral;
  2. vistas intermediárias que mostram relações;
  3. detalhes dos vestígios.

O detalhe sem contexto pode mostrar o que existe, mas não onde estava.

3.3 Croqui, medidas e relações espaciais

Croqui e medidas ajudam a registrar posições relativas, distâncias e orientação.

A utilidade não é estética. É permitir que outra pessoa entenda a geometria básica da cena e confronte hipóteses com as posições documentadas.

O artigo 169 do CPP admite que os peritos ilustrem os laudos com fotografias, desenhos ou esquemas elucidativos.

4. Levantamento não é coleta indiscriminada

O local contém muitos elementos que não têm relação com o fato.

Por isso, o levantamento precisa responder:

  • que elemento pode ter interesse pericial?
  • qual relação espacial precisa ser preservada antes de qualquer remoção?
  • que exame posterior pode responder à pergunta relevante?
  • que elemento pode ser apenas parte normal do ambiente?

A unidade PER-U074 aprofundará as classificações dos vestígios. Aqui basta uma regra:

reconhecer potencial interesse não significa concluir, naquele momento, que o elemento pertence à dinâmica do fato.

5. A finalidade é responder quesitos, não confirmar a primeira versão

Uma equipe pode chegar ao local já com relatos, suspeitas ou hipótese inicial.

Essas informações orientam a atenção, mas não devem controlar o resultado.

O levantamento deve permitir:

  • materializar o estado do local;
  • localizar e documentar elementos relevantes;
  • identificar compatibilidades e incompatibilidades;
  • apoiar exames posteriores;
  • testar versões;
  • delimitar o que pode e o que não pode ser concluído.

Se a cena parece compatível com uma versão, isso ainda é hipótese. O valor do levantamento está em permitir confronto.

6. Locais contra a pessoa: o corpo não elimina o ambiente

Em ocorrências contra a pessoa, o levantamento pode precisar integrar:

  • posição da vítima ou do corpo;
  • roupas e objetos próximos;
  • superfícies de contato;
  • manchas e marcas;
  • sinais de deslocamento ou intervenção;
  • acessos e saídas;
  • instrumentos ou objetos potencialmente relacionados;
  • registro de atendimento médico ou socorro, quando houver.

O objetivo não é diagnosticar lesões em profundidade — isso pertence ao exame médico-legal quando aplicável.

A pergunta criminalística é:

como os elementos materiais do ambiente se relacionam com a pessoa e com a dinâmica possível do fato?

Tentativa de homicídio, agressão ou outra ocorrência contra a pessoa pode deixar uma cena importante mesmo sem cadáver.

7. Locais contra o patrimônio: procure relações de acesso, ação e deslocamento

Em ocorrências contra o patrimônio, a atenção tende a se deslocar do corpo para:

  • pontos de acesso e saída;
  • fechaduras, portas, janelas, barreiras e superfícies;
  • danos e marcas de ação mecânica;
  • objetos deslocados;
  • áreas de busca ou remeximento;
  • impressões, marcas de calçado e outros contatos;
  • ferramentas ou fragmentos;
  • veículos e rotas relacionadas;
  • diferença entre o estado habitual informado e o estado encontrado.

O objetivo não é ensinar como transpor uma barreira. É verificar que alterações materiais ocorreram e que relações podem ser examinadas.

Um dano próximo à entrada, por exemplo, não prova sozinho arrombamento praticado pelo autor. Pode ser anterior, posterior, acidental ou forjado. A relação precisa ser demonstrada.

8. Pessoa e patrimônio não formam dois métodos periciais isolados

A classificação do delito organiza prioridades, mas o método geral continua baseado em:

preservar → observar → documentar → reconhecer → relacionar → coletar quando cabível → examinar → interpretar

Uma ocorrência patrimonial pode envolver violência contra pessoa.

Uma ocorrência contra pessoa pode envolver dano, subtração ou deslocamento de bens.

Portanto, a divisão do edital é um recorte de finalidade, não uma parede entre tipos de vestígio.

9. O local deve ser lido em camadas

Uma forma eficiente de não perder contexto é estudar a cena em três camadas.

9.1 Ambiente

Que espaço foi examinado? Quais acessos, limites e condições podem ter influenciado o estado encontrado?

9.2 Relações

Como pessoas, objetos, danos, manchas, marcas e superfícies se posicionam uns em relação aos outros?

9.3 Detalhes

Que características individuais precisam de fotografia, medida, coleta ou exame especializado?

A sequência evita um erro comum: começar por um vestígio chamativo e perder a arquitetura da cena.

10. Negativo também precisa de cuidado

Não encontrar determinado elemento pode ser relevante, mas a ausência observada não deve virar conclusão absoluta sem considerar:

  • possibilidade de perda ou degradação;
  • alteração anterior do local;
  • limitação do método empregado;
  • área efetivamente examinada;
  • expectativa técnica real de que o vestígio existisse.

Assim:

“não observado” é diferente de “comprovadamente inexistente”.

Essa distinção vale tanto para pessoa quanto para patrimônio.

11. Cena alterada: documentar o que restou e o que mudou

Se a cena já foi modificada, o artigo 169, parágrafo único, do CPP exige registro das alterações e discussão de suas consequências.

No levantamento, isso significa separar:

  • condição observada na chegada;
  • alteração conhecida;
  • fonte da informação sobre o estado anterior;
  • inferências que ainda permanecem sustentáveis.

Não se “corrige” uma cena alterada. Documenta-se a alteração e reduz-se o alcance da conclusão quando necessário.

12. Laudo e levantamento não são sinônimos

O levantamento é o trabalho de exame e documentação do local.

O laudo é a peça em que o perito formaliza métodos, achados e conclusões pertinentes.

Uma fotografia, uma medida ou um croqui são registros do levantamento. Eles não substituem, isoladamente, o raciocínio pericial que explica o significado e o limite desses dados.

13. O que fica para as próximas unidades

  • PER-U074: conceito e classificações dos vestígios de interesse forense.
  • PER-U075: integração específica de local de morte e morte violenta.
  • PER-U076–U078: particularidades de arma de fogo, instrumentos mecânicos e asfixia.
  • PER-U081: fenômenos cadavéricos e cronotanatognose em profundidade.

U073 encerra na finalidade e documentação do levantamento, sem transformar o aluno em operador de técnicas especializadas de campo.

14. Roteiro de prova

Pergunte:

  1. a alternativa preserva a sequência documentar antes de remover?
  2. distingue observação, relato e inferência?
  3. entende fotografia de contexto, relação e detalhe como complementares?
  4. confunde potencial interesse com vínculo já comprovado?
  5. tenta confirmar a primeira hipótese em vez de testá-la?
  6. trata pessoa e patrimônio como métodos totalmente desconectados?
  7. transforma ausência observada em inexistência absoluta?
  8. ignora alteração conhecida da cena?
  9. confunde registro do levantamento com conclusão final?

15. Pegadinhas

  • levantamento = simples coleta de objetos → não;
  • fixação = coleta → não;
  • foto de detalhe dispensa contexto → não;
  • elemento reconhecido como potencial vestígio já está vinculado ao fato → não;
  • primeira versão deve orientar a conclusão → não;
  • local contra pessoa exige sempre cadáver → não;
  • local patrimonial trata apenas de valor econômico → não;
  • dano em acesso prova arrombamento pelo autor → não;
  • ausência de vestígio esperado prova que ele nunca existiu → não;
  • cena alterada deve ser reconstruída por memória → não;
  • laudo = fotografia/croqui isolado → não.

16. Recuperação ativa

  1. Qual é a finalidade central do levantamento de local?
  2. Como reconhecimento, fixação e coleta se diferenciam?
  3. Por que documentar antes de remover?
  4. O que descrição, fotografia e croqui acrescentam de forma diferente?
  5. Qual a diferença entre observação, informação recebida e inferência?
  6. Por que potencial interesse não é relação já comprovada?
  7. Que pergunta organiza um local contra a pessoa?
  8. Que relações ganham importância em local contra o patrimônio?
  9. Por que a divisão pessoa/patrimônio não cria métodos isolados?
  10. O que significa ler a cena por ambiente, relações e detalhes?
  11. Por que “não observado” não equivale a “inexistente”?
  12. Como tratar uma cena alterada?
  13. Qual é a diferença entre levantamento e laudo?
  14. Que conteúdos ficam para U074 e U075?
Referências

Referências — Levantamentos de locais contra a pessoa e o patrimônio

Fontes revalidadas em 6 de outubro de 2026. Corte legislativo da campanha: 17 de julho de 2026.

Programa

  1. Centro Brasileiro de Pesquisa em Avaliação e Seleção e de Promoção de Eventos. Edital nº 1 — Perícia Oficial do Maranhão 2026, versão consolidada até o Edital nº 3. Cargo 1 — Agente de Perícia Criminal — Generalista. Noções de Criminalística, item 7: “Finalidades dos levantamentos dos locais de crime contra a pessoa e contra o patrimônio.”
    https://cdn.cebraspe.org.br/concursos/PERICIA_OFICIAL_MA_26/arquivos/4D20E2DA7DBC1641876662EB9AA0D7675004148D54B063FCBFE7EFC58355E6C2.pdf

Fonte normativa primária

  1. Brasil. Decreto-Lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941 — CPP, texto compilado. Artigos 158-A e 158-B: reconhecimento, fixação, coleta e rastreamento do vestígio. Artigo 169: exame de local, possibilidade de ilustração por fotografias, desenhos ou esquemas e registro das alterações do estado das coisas e de suas consequências.
    https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del3689compilado.htm

Referências institucionais de local de crime

  1. Ministério da Justiça. SENASP. Caderno Temático de Referência — Investigação Criminal de Homicídios. Brasília, 2014. Fonte já revalidada na PER-U072 para preservação, delimitação, documentação do local e separação entre informação obtida e achado material. Nesta unidade, serve apenas ao mecanismo geral do levantamento, sem importar investigação de homicídios como programa adicional.
    https://dspace.mj.gov.br/bitstream/1/2314/1/investigacao_criminal_homicidios.pdf

  2. Secretaria de Segurança Pública do Maranhão. Instituto de Criminalística de São Luís atendeu em 2021 mais de 7.000 ocorrências e emitiu mais de 5.000 laudos periciais. Página institucional publicada em 11/01/2022. Confirma, no próprio sistema pericial maranhense, a atuação externa do Instituto de Criminalística em morte violenta e crimes contra o patrimônio, além da coleta de impressões e materiais químicos, biológicos e genéticos. Consulta em 06/10/2026.
    https://www.ssp.ma.gov.br/instituto-de-criminalistica-de-sao-luis-atendeu-em-2021-mais-de-7000-sete-mil-ocorrencias-e-emitiu-mais-de-5000-cinco-mil-laudos-periciais/

  3. Instituto-Geral de Perícias do Rio Grande do Sul — Departamento de Criminalística. A Seção de Atendimento de Locais realiza exames em locais de morte violenta, tentativas de homicídio, disparos e outras perícias voltadas ao esclarecimento das circunstâncias do fato. Usada apenas como confirmação institucional contemporânea de que exame de local é trabalho de documentação e interpretação material, não como norma aplicável ao Maranhão. Consulta em 06/10/2026.
    https://www.igp.rs.gov.br/departamento-de-criminalistica

Proveniência, reaproveitamento e fronteiras

  • Classificação editorial: parcial/local.
  • Origem física somente leitura O067: src/content/assuntos/pc-ma-2026-oficial-investigador/conhecimentos-especificos/medicina-legal/exame-medico-legal-locais-crime/. Blobs lidos: C 995521dc432975b1ab97895c6aea20b0453c66fe, H 981ccc8dba235345a8be40b50352cbbf310fa9b9, Q 06b8bd67789ab7b826d3213456ca02c3db2e5289, R e58cdd90ec8085737f4115d96a87fd866258b99d.
  • O067 contribuiu apenas com o princípio de documentação do geral ao particular, relações espaciais, distinção entre registro e inferência e tratamento de cena alterada. Perinecroscopia, fenômenos cadavéricos, necropsia e particularidades de local de morte não foram importados para U073.
  • PER-U072 é pré-requisito/ponte para isolamento e preservação. PER-U074 recebe a classificação dos vestígios; PER-U075, local de morte/morte violenta; PER-U076–U078, mecanismos específicos; PER-U081, fenômenos cadavéricos.
  • A busca de questões pertinentes não justificou forçar questão anterior em U073: a adaptação PC-RJ/2022 de O067 é mais aderente a local de morte e fica reservada para U075. O banco U073 contém 20 questões autorais, cinco alternativas e gabarito único.
  • Destino: src/content/assuntos/pericia-ma-2026-agente-criminal-generalista/conhecimentos-especificos/nocoes-criminalistica/levantamentos-locais-pessoa-patrimonio/; identidade per-u073, ordem 730, consumidor Generalista.
  • Sem vinculo.json e sem resolucoes/*.md. Corte legislativo 17/07/2026; consulta material em 06/10/2026.
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